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        <title><![CDATA[José Santhiago]]></title>
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        <description><![CDATA[Noticiar - José Santhiago]]></description>
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                    <dc:rights><![CDATA[Copyright© 2026 Noticiar: Portal de notícias do GuiaBom.com - Todos os direitos reservados.]]></dc:rights>
        
                        <item>
                    <title><![CDATA[Eu não sei]]></title>

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                    <description><![CDATA[A maturidade permite-nos dizer que não sabemos.]]></description>

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                    <pubDate>Sun, 20 Sep 2026 10:34:18 -0300</pubDate>

                    <dc:creator><![CDATA[José Santhiago]]></dc:creator>

                    
                                            <content:encoded><![CDATA[<h1 dir="ltr"><span style="font-size: 14pt;">Eu não sei</span><b></b></h1>
<p dir="ltr"><span>Em alguns momentos do dia, tenho quase que obrigação de dedicar ao menos uma hora para acessar as redes sociais para saber das novidades. Não abandonei meus jornais favoritos, com os quais ainda mantenho assinaturas mensais, agora lidos no formato digital. E, não é superficial dizer que nunca tivemos tanta informação ao alcance das mãos. Em poucos minutos, conseguimos assistir a um vídeo sobre economia, ler um post sobre saúde, acompanhar uma discussão política e encontrar alguém explicando física quântica em menos de um minuto. </span></p>
<p dir="ltr"><span>Além de informação falsa, há muita coisa séria e que vale a pena meu dispêndio de alguns minutos. Também não posso deixar de falar dos memes e dos vídeos de puro entretenimento. Isso é fascinante, mas também me preocupa. Às vezes, parece que estamos confundindo cada vez mais ter acesso à informação com realmente compreender alguma coisa. </span></p>
<p dir="ltr"><span>Minha tela do celular está cheia de "especialistas de tudo". De receitas caseiras que curam calvície a estrategistas de poder que "sabem tudo o que não passa nos jornais".</span></p>
<p dir="ltr"><span>Foi pensando nisso que pesquisei sobre o chamado efeito Dunning-Kruger. O fenômeno ganhou esse nome a partir de um estudo publicado em 1999 pelos psicólogos David Dunning e Justin Kruger, pesquisadores da Universidade Cornell. </span></p>
<p dir="ltr"><span>Simplificando, pois esse espaço não nos permite um debate tão profundo como o tema merece, esses pesquisadores observaram que pessoas com baixo desempenho em determinadas tarefas também podiam ter dificuldade para reconhecer as próprias limitações. </span></p>
<p dir="ltr"><span>Vamos lá: para perceber que não sabemos de alguma coisa, muitas vezes precisamos saber o suficiente sobre ela para identificar nossos próprios erros. Meio que dizer que, depois que estudei um pouco sobre fisiologia humana, percebi que não sei muita coisa a respeito. Cruel, né?</span></p>
<p dir="ltr"><span>A frase que bomba na internet é “quem sabe menos é quem fala com mais certeza”. </span></p>
<p dir="ltr"><span>Acho essa frase interessante, mas ela também simplifica demais o estudo. O ponto mais importante, para mim, está na chamada metacognição: nossa capacidade de avaliar o próprio conhecimento não é perfeita. Podemos acreditar que entendemos muito mais do que realmente entendemos. E, conforme aprendemos, começamos também a enxergar a complexidade que antes nem sabíamos que existia.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Pergunte a um borracheiro por que determinados tipos de pneus têm que ter determinada calibragem do ar comprimido. Então, meu amigo, verá que você não sabe nada de pneu e de pressão manométrica.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Talvez seja justamente por isso que discutir o viés de Dunning-Kruger tenha ganhado sentido e importância nas redes sociais. O que acontece é que estamos consumindo uma quantidade gigantesca de informações em fragmentos de  vídeo de 30 segundos, carrossel, manchetes, cortes de podcast. </span></p>
<p dir="ltr"><span>Acessamos conteúdos rápidos e conhecemos alguns conceitos e palavras novas, de modo enormemente superficial, o que significa necessariamente que pensamos que dominamos um assunto, mas não "sabemos realmente" muito sobre ele.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Informação não é sinônimo de conhecimento. Conhecimento exige contexto, comparação, estudo, dúvida e, muitas vezes, tempo. Conhecer é questionar antes de tudo.</span></p>
<p dir="ltr"><span>As próprias redes ajudam a piorar o problema na medida em que os algoritmos das empresas proprietárias das plataformas, em conjunto com nossas escolhas e preferências pessoais, podem fazer com que encontremos repetidamente conteúdos semelhantes às nossas próprias opiniões. É como se falássemos apenas para quem concorda com a gente ou que ouvíssemos sempre opiniões condizentes com as nossas. É um vai-e-vem das mesmas ideias, muitas vezes equivocadas.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Isso, num primeiro momento, nos dá conforto pois acabamos por achar que não estamos sózinhos em nossas opiniões, mas pode gerar o equívoco de imaginarmos que o que pensamos faz parte da maioria da mentalidade social vigente.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Quando quase tudo que aparece na tela confirma aquilo em que já acreditamos, fica mais difícil perceber argumentos contrários e questionar nossas certezas. Alguns pesquisadores estudaram como ambientes informacionais e grupos podem favorecer esse tipo de dinâmica. Outros refletem sobre a existência das chamadas “bolhas de filtros”.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Quando você acessa uma rede social é praticamente certo que os algoritmos o coloquem em um "nicho" ideológico. Pense nisso! Sem querer, você já está rotulado por um "alguém" que você nem conhece.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Outro aspecto é a velocidade com que hoje somos incentivados a aprender tudo. Existem cursos rápidos, resumos, certificações e tutoriais para praticamente qualquer assunto. Essas ferramentas podem ser excelentes portas de entrada para o conhecimento, mas uma introdução não deveria ser confundida com domínio de um tema. </span></p>
<p dir="ltr"><span>Com a leitura acontece o mesmo. Se você se acostuma apenas a conteúdos curtos, poderá perder espaço para aquela leitura lenta que nos obriga a parar, voltar uma página, discordar e pensar. É quase certo que uma leitura rápida aborte sua iniciativa de reflexão. A pesquisadora Maryanne Wolf, por exemplo, discute justamente os impactos do ambiente digital sobre a leitura profunda.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Estou atualmente desenvolvendo uma habilidade há muito esquecida. Estou voltando a dizer “eu não sei”. Antes de compartilhar uma informação, tenho perguntado a mim mesmo de onde ela veio, quem tem interesse em sua propagação, quais efeitos ela realmente produz…essas coisas!</span></p>
<p dir="ltr"><span>Adoro falar da minha experiência pessoal. Contudo, tenho consciência de que ela não é suficiente para sustentar conclusões sobre tudo. Tenho opiniões, experiências e estudo, por isso sei que é importante reconhecer que não saber não diminui ninguém. </span></p>
<p dir="ltr"><span>No fim, quanto mais estudo determinado assunto, mais interessante acho perceber o tamanho daquilo que ainda não conheço. </span></p>
<p dir="ltr"><span>Não tenho mais vergonha em dizer <em>"Eu não Sei!"</em>.</span></p>
<p></p>]]></content:encoded>
                                    </item>
                            <item>
                    <title><![CDATA[Simeão está de volta]]></title>

                    <link>https://noticiar.com.br/simeao-esta-de-volta</link>
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                    <description><![CDATA[Simeão passa a eternidade escutando as pessoas.]]></description>

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                    <pubDate>Sun, 13 Sep 2026 22:40:50 -0300</pubDate>

                    <dc:creator><![CDATA[José Santhiago]]></dc:creator>

                    
                                            <content:encoded><![CDATA[<p dir="ltr"><span>Simeão tinha o hábito de escrever à caneta preta os dias numerais do mês nas embalagens dos comprimidos obrigatórios.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Com mãos seguras de quem trabalhou durante décadas, primeiro datilografando e depois digitando em teclas alfabéticas de todas as marcas, sempre priorizando o arranjo QWERTY, Simeão acostumou-se a ler e digitar textos de outras pessoas. Essa era sua profissão: registrar no papel, através da máquina, o pensamento de outrem. A escrita, mais que uma ferramenta de comunicação, era um ritual de encantamento das memórias. </span></p>
<p dir="ltr"><span>Em algumas ocasiões, se necessitasse de dinheiro extra, fazia as vezes de registrador de atas, trabalhando diretamente do ouvido. Pessoas falavam em reuniões ao som dos dedos de Simeão machucando as teclas. Tudo em tempo real, analógico e instantâneo.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Simeão agora estava aposentado, mas seus dedos continuavam à procura de novas teclas de letras.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Por tantos anos nesse afazer, Simeão tornou-se um ótimo ouvinte. Talvez pela idade, talvez pelo uso demasiado prolongado, suas orelhas eram enormes. Tudo captavam.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Ao retirar um comprimido do blister, guardava a parte rasgada contendo o número do dia e a colava em uma folha. Assim, não corria o risco de ingerir dois dos mesmos remédios em um único dia. Seguia essa rotina, que nomeara como "metodologia da pílula". Sabia exatamente quais os dias que faltavam para que necessitasse comprar novas caixas.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Simeão, então, gostava de seguir hábitos e tinha o dom de escutar estranhos.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Aqui começa sua aventura.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Logo que seu corpo esfriou, seguiu para o salão do julgamento. Em cada canto, uma fila. A do inferno estava enorme. Preferiu a do céu.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Antes de qualquer conversa, identificou todas as sinalizações, horizontais e verticais. Observou os trajes e trejeitos das almas que estavam à espera do chamado para o julgamento.</span></p>
<p dir="ltr"><span>A fila andou ligeiro. Seu nome foi chamado e o anjo atendente fez sinal para que se aproximasse do púlpito branco a fim de declarar seus pecados.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Simeão não disse nada. Não se via como pecador. Calado, não era de falar de outras pessoas. Passara a vida escutando e digitando. Trabalhara sempre pelo salário ofertado, nunca questionando. Solteiro e celibatário, não gerou corvos nem querubins. Aceitou a vida como a recebeu. Acomodou-se a comer o necessário, a vestir o essencial e a falar pouco, eximindo-se de ter opiniões.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Simeão não sabia se passara pela vida ou se a vida passara por ele. Ele era uma pessoa mediana.</span></p>
<p dir="ltr"><span>O anjo redirecionou sua ficha para outra fila. Explicou com desdém uma resposta rápida: </span><em>seu lugar não é aqui.</em></p>
<p dir="ltr"><span>Simeão ouviu, olhou para os lados, balançou os ombros com um pequeno sorriso sem graça no canto da boca. Encarou o anjo. Abaixou a cabeça e saiu da frente do púlpito celeste. Caminhou pelo salão e se dirigiu à fila infernal.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Enquanto caminhava pela extensão, praguejou contra a situação. Afinal, não se importava muito com seu destino. Onde quer que estivesse na eternidade, ainda seria um ótimo ouvinte e saberia registrar tudo o que ouvisse. Sua maior preocupação era saber com que tipo de máquinas poderia contar lá naquela eternidade.</span></p>
<p dir="ltr"><span>O Diabo estava cansado da companhia dos datilógrafos do século XX. Eles tinham a mania de registrar tudo, e o que o tinhoso mais detestava era ver gente-alma anotando promessas e juras.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Quando soube que Simeão estava na fila para entrar no inferno, após ter sido preterido pelo anjo atendente do outro lado eterno do salão, o Diabo não teve dúvida: </span><em>se não o querem lá, por que o terei aqui?</em></p>
<p dir="ltr"><span>Simeão sentiu no peito o choque elétrico do desfibrilador do serviço de atendimento de urgência. Estava deitado na calçada da rua de casa. O calor no corpo ressurgiu. Sentiu o gosto de saliva voltando. Os olhos se abriram. Sua mão sentiu no bolso a cartela de comprimidos que, feita em plástico com pequenas bolhas transparentes, guardava as cápsulas do medicamento daquele dia, ainda não tomado. Uma lágrima salgada rolou por seu rosto e manchou a gola da camisa amarelada de tanto uso.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Uma voz do além pode ser ouvida:</span></p>
<p dir="ltr"><em>Simeão está de volta para ouvir o mundo.</em></p>
<p></p>]]></content:encoded>
                                    </item>
                            <item>
                    <title><![CDATA[O seu passado já foi o meu futuro]]></title>

                    <link>https://noticiar.com.br/o-seu-passado-ja-foi-o-meu-futuro</link>
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                    <description><![CDATA[O futuro, interpretado pelo domínio de tecnologias, torna-se passado para novas gerações.]]></description>

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                    <pubDate>Sun, 06 Sep 2026 20:57:00 -0300</pubDate>

                    <dc:creator><![CDATA[José Santhiago]]></dc:creator>

                    
                                            <content:encoded><![CDATA[<p dir="ltr"><span><b id="docs-internal-guid-ecf042e5-7fff-03e3-afc8-3163ed929ac4">O seu passado já foi o meu futuro</b></span></p>
<p dir="ltr"><span>Fiquei sabendo que a prática conhecida como fotografia </span><em>post-mortem</em><span> foi muito difundida na Grã-Bretanha da Era Vitoriana, durante o século XIX, principalmente entre 1840 e 1880. Tal atividade também foi praticada nos Estados Unidos e em outras partes da Europa.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Isso me pôs algumas interrogações na cabeça. Na mesma semana, assisti a um vídeo sobre astronomia em que o especialista informou que muitas das luzes que vemos no céu à noite são "luzes fantasmas", porque não sabemos ao certo, por causa das distâncias gigantescas, se esses mundos e as vidas que possam existir ou ter existido neles continuam lá. Talvez sejam apenas luzes que nos chegam muito depois do tempo em que elas se foram da existência.</span></p>
<p dir="ltr"><span>E ontem, acompanhado de minha filha, fui visitar uma exposição de discos de vinil (LP's), CD's (<em>compact disc</em>), fitas VHS, radiolas, vitrolas, tevês de tubo, isqueiros Zippo, canivetes suícos, relógios com ponteiros, cucos abandonados, canetas Montblanc com tintas azuladas, máquinas de escrever de variados tipos (alavanca, margarida, bola, de teclas de marfim e outras de plástico). </span></p>
<p dir="ltr"><span>Em um </span><em>stand</em><span> bem apetrechado de quinquilharias, minha filha empacou. Queria que o atendente explicasse o que era o aparelho de <em>fac-símile</em> (fax). A explicação pormenorizada, durante uns 40 minutos, foi enfadonha para meus ouvidos, mas para ela foi um suprassumo de história e curiosidade.</span></p>
<p dir="ltr"><em>Quer dizer, então, que vocês enviavam fotos em preto e branco de baixa qualidade, de um telefone para outro, utilizando papel térmico? Que massa!</em></p>
<p dir="ltr"><span>Andando por outros corredores, ela conheceu lâmpadas halógenas, placas luminárias com dicróicas, sinalização pintada com esmaltes reluzentes e aparelhos de rádio-despertador, cujos botões </span><span>snozze</span><span> interromperam as melhores sonecas da juventude de muitos.</span></p>
<p dir="ltr"><em>Como são interessantes essas antiguidades. Muita coisa feia. Não imagino como usavam essas tralhas. Nem sei como eu usaria essas geringonças. Ufa! Meu telefone plus faz quase tudo.</em></p>
<p dir="ltr"><span>Ela, jovem e habituada à vivência do mundo digital, encantou-se, por curiosidade, com tantos dispositivos antigos. Já passara pelo corredor dos carros traquitanas, velhos calhambeques restaurados por insistentes colecionadores. Estava no corredor das bicicletas. Coloridas e com formatos do rebuscado ao prateado indicavam o tempo das duas rodas da Art Nouveau e do futurismo dos Jetsons (<em>The Jetsons</em>), que foi uma das séries animadas mais icônicas da história da televisão e que estreou originalmente em 23 de setembro de 1962.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Antes de deixarmos a exposição, sentamos-nos para um breve café. A abóbada do recinto apresentava uma pintura de um céu estrelado descascado. As paredes cor de musgo sustentavam retratos antigos de pessoas do final do século XIX e início do XX. O café foi servido demoradamente em uma bandeja de prata, que foi colocada sobre uma mesinha redonda de bar, cujo tampo era um mosaico de pedrinhas de vidro translúcido e multicolorido.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Senti o cheiro do café forte e impetuoso e, pasmem!, senti-me no paraíso do estilo e bom gosto. A xícara de porcelana trazia sob sua base o carimbo impresso sob chamas das duas espadas coloridas de azul. Era uma <em>Meissen</em> alemã original, coisa fina que poucos podem apreciar. Parece que o café ficou ainda mais gostoso quando foi acompanhado de balinhas de anis. O barista me confidenciou que eram Pastilhas Barkleys Aniseed. Foi um delírio para o paladar.</span></p>
<p dir="ltr"><em>Tudo é muito interessante, mas não sei como vocês viviam sem as redes sociais, sem as IA's generativas, sem as videochamadas, sem os intântaneos de imagem, sem os bate-papos, sem as reuniões on-line, sem os mapinhas coloridos dos GPS's.</em><span> Minha filha falou de modo sarcástico. </span></p>
<p dir="ltr"><span>Um certo orgulho bateu no meu peito.</span></p>
<p dir="ltr"><em>O seu passado já foi o meu futuro.</em><span> Retruqei com uma pontada de nostalgia na fala.</span></p>
<p></p>]]></content:encoded>
                                    </item>
                            <item>
                    <title><![CDATA[A mesa foi posta]]></title>

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                    <description><![CDATA[Destaque para a importância da dedicação profissional]]></description>

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                    <pubDate>Mon, 31 Aug 2026 11:05:48 -0300</pubDate>

                    <dc:creator><![CDATA[José Santhiago]]></dc:creator>

                    
                                            <content:encoded><![CDATA[<h1 dir="ltr"><span>A mesa foi posta.</span></h1>
<p><b> </b></p>
<p dir="ltr"><span>No dia 31 de agosto, quando Ana chegou à sala de trabalho encontrou vários recados. Chegara pela manhã novo carregamento de frutas e verduras e as crianças estavam em alvoroço. Todas queriam morango com um pouco de chantilly. </span></p>
<p dir="ltr"><span>Todo tipo de verduras, legumes, frutas e outros itens para compor a dieta das crianças que estavam internadas no hospital. Carentes, submetidas a vários protocolos de tratamento, as crianças faziam festa sempre quando o carro de entrega aparecia na porta frontal do hospital. Também as mães e funcionários abriam o sorriso, pois sabiam que as crianças seriam as maiores beneficiadas.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Comida boa para quem mais precisa.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Ana sentou-se e começou a conferir as notas e a documentação. Depois, com calma, desceu até a porta do caminhão de hortifrutis e foi conferir a qualidade, a quantidade e, sobretudo, a variedade da entrega. O alimento foi doado por um supermercadista da região, homem conhecido na comunidade que havia perdido há alguns anos seu único filho para um câncer devastador.</span></p>
<p dir="ltr"><span>A alimentação adequada às crianças acometidas de doenças severas faz parte dos protocolos de cuidados e das terapias. Ana sabia muito bem disso, daí sua preocupação diária com a qualidade dos alimentos.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Cores, formatos, distribuição, valor proteico, sabor e apresentação, tudo era levado em consideração na hora das refeições.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Naquele dia especial, Ana reservou um tempo para inovar. Chamou algumas cozinheiras, mais experientes, para criar "animais" e "flores" com os alimentos. Ela havia aprendido a decorar a mesa com "animais" de frutas e legumes. </span></p>
<p dir="ltr"><span>A mesa foi posta pontualmente ao meio-dia. Saindo da cozinha, toda a sorte de um autêntico zoológico vegetal. Sua destreza impressionava a todos: tubarões, corujas, pinguins, pintinhos, peixes, borboletas, caranguejos, tartarugas e dragões imaginados.</span></p>
<p dir="ltr"><span>O destaque foi para um golfinho feito a partir de bananas num mar de aveia.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Meninas correram para ver o mico-leão enquanto os meninos cuidaram dos cavalos e leões. Era festa, fartura, cores e sorrisos patrocinados por um homem triste em sua dor mais profunda.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Ana sabia das emoções que estava em jogo e, com bastante antecedência, havia convidado Petrônio para aquele almoço especial. Afinal, como doador, ele talvez não imaginasse o quanto de felicidade os alimentos, transformados para um universo de animais, causariam na mentes inquietas das crianças. </span></p>
<p dir="ltr"><span>No centro da mesa a "coruja" da sabedoria. Petrônio chegou, sorriu, foi abraçado por várias crianças com calvícies variadas e foi sentar-se no local designado.</span></p>
<p dir="ltr"><em>___Parabéns ao nosso doador!</em><span><em> </em>Ana, em voz alta, conquistou a atenção dos presentes.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Prontamente, Petrônio acenou a mão, arqueou-se em sinal de respeito perante todos e lembrou:</span></p>
<p dir="ltr"><em>___Apenas dei os alimentos. Quem está de Parabéns são todos vocês, especialmente Ana, pois hoje é o dia do Nutricionista!</em></p>
<p dir="ltr"><span>Envolta em sorrisos e abraços, a mesa foi posta.</span></p>
<p></p>]]></content:encoded>
                                    </item>
                            <item>
                    <title><![CDATA[Escolho acertar]]></title>

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                    <description><![CDATA[Que falta faz um balcão de padaria!]]></description>

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                    <pubDate>Mon, 24 Aug 2026 15:54:39 -0300</pubDate>

                    <dc:creator><![CDATA[José Santhiago]]></dc:creator>

                    
                                            <content:encoded><![CDATA[<p dir="ltr"><span>Davi sabia que deveria comprar o pão o quanto antes. Seu pai chegaria logo do trabalho e o dinheiro dado pela mãe estava no bolso de Davi desde cedo. Ele se esqueceu de ir à padaria no início da tarde e a noite estava se aproximando. Seu pai ficaria zangado e lançaria labaredas se chegasse em casa e não encontrasse o pãozinho.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Davi pediu. O padeiro atendeu. Logo no caixa sacou o dinheiro. Pagou. Recebeu troco de dois reais. Montou sua bicicleta e retornou para casa. </span></p>
<p dir="ltr"><em>Ufa! Deu tempo. Quando meu pai chegar, o pãozinho estara na mesa. </em>Sua tranquilidade estava garantida. </p>
<p dir="ltr"><span>Sua mãe, observadora que era, pediu de volta o troco. Havia dado ao menino dez e o pão deveria custar nove, daí ser devido um para acumular para o dia seguinte. </span><em>Davi! Cadê o troco?</em></p>
<p dir="ltr"><span>O menino sacou os dois do bolso e ambos, menino e mamãe, perceberam que o troco estava errado, errado para mais. </span><span><em>Vá já devolver! Traga-me o troco certo. Fale com o padeiro que pedimos desculpas pelo transtorno. Devolva o dinheiro que veio a mais</em>.</span><span> Ordenou a mãe.</span></p>
<p dir="ltr"><span>De cima de seus dez anos, Davi não entendeu. Afinal, o dinheiro a mais não era roubado. Erro do caixa da padaria, que desatento deixou passar. </span><em>Qual mal em ficar com os dois de volta? </em>Pensou.</p>
<p dir="ltr"><span>No caminho, Davi encontrou Amando, dois anos mais velho. </span><em>Que besteira, Davi! Meu pai me ensinou que nesses casos o dinheiro é do mais esperto. Fique com o dinheiro. Ninguém vai saber.</em></p>
<p dir="ltr"><span>Dois no bolso, Davi retornou para casa. </span></p>
<p dir="ltr"><em>Davi, devolveu? </em></p>
<p dir="ltr"><em>Devolvi, mamãe!</em></p>
<p dir="ltr"><span>No dia seguinte, caindo a noite, Juvenal chegou à padaria e, cumprimentando todos, deixou um largo sorriso bigodudo. O pai de Davi sabia ser simpático. Pediu nove pães como de costume. Padeiro atendeu. O caixa recebeu seu dinheiro. Tudo tranquilo.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Antes de partir, Juvenal falou alto: </span><em>Manuel, desculpe pelo transtorno do troco de ontem. Ainda bem que Davi já trouxe a sobra</em><span><em>.</em> E sorriu! </span></p>
<p dir="ltr"><span> Manuel franziu a testa, coçou a barba. Passou a mão na cabeleria grisalha. Respondeu. </span><em>Tudo está bem!</em></p>
<p dir="ltr"><span>Seguindo a rotina, no dia seguinte, Davi chegou à padaria e pediu os pães do pai. Manuel chamou o menino no canto do balcão. </span><em>Você mentiu para seu pai? Disse que me devolveu o troco dado errado?</em></p>
<p dir="ltr"><em>É que achei que não havia problema, pois o erro não foi meu!</em></p>
<p dir="ltr"><span>Manuel falou baixo, mas com firmeza. </span><em>Conheço seu pai desde a infância. Homem correto e de palavra. Amigo de todos aqui. Seu pai sabendo que você mentiu, terá uma tristeza grande para ele e para sua família. Você vai continuar no erro?</em></p>
<p dir="ltr"><span>Davi lacrimejou os olhos e devolveu o dinheiro indevido. </span><em>Desculpa, achei que não era importante.</em></p>
<p dir="ltr"><em>Não é o valor do erro que importa. É sua consciência de jovem que medirá seu caráter futuro. Assim como criticamos políticos e autoridades quando metem a mão no bolso do dinheiro público, também devemos rechaçar o comportamento miúdo que se aproveita do outro colega, do vizinho, na escola ou no trabalho, no dia a dia da vida. Entende isso?</em></p>
<p dir="ltr"><em>Entendo!</em></p>
<p dir="ltr"><span>Quando se aposentaram, Juvenal e Manuel cultivaram o hábito de tomar diariamente um cafezinho na mesa em frente à padaria. Comentavam a política, os transeuntes e seus hábitos estranhos, a fofoca do bairro e curiosidades da vida. Estavam vivendo a aposentadoria tanto tempo sonhada e tudo ia bem até o dia em que perceberam que, dos vencimentos percebidos como aposentados, estava sendo desvidado dinheiro para instituições que nem conheciam.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Até agora os dois aposentados não foram ressarcidos nem os criminosos e seus políticos de relacionamento foram punidos. De certo, alguns jovens envelheceram sem terem tido a experiência de serem chamados a devolver um troco recebido errado. </span></p>
<p dir="ltr"><span>Um dia alguém disse: <em>que falta faz um balcão de padaria!</em></span></p>
<p></p>]]></content:encoded>
                                    </item>
                            <item>
                    <title><![CDATA[O palácio de Mafalda]]></title>

                    <link>https://noticiar.com.br/o-palacio-de-mafalda</link>
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                    <description><![CDATA[Mafalda cuida do universo]]></description>

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                    <pubDate>Mon, 17 Aug 2026 10:54:03 -0300</pubDate>

                    <dc:creator><![CDATA[José Santhiago]]></dc:creator>

                    
                                            <content:encoded><![CDATA[<h1 dir="ltr"><span>O palácio de Mafalda</span></h1>
<h2 dir="ltr"><span>(17 de agosto de 2026)</span></h2>
<p><b> </b></p>
<p dir="ltr"><span> Ao iniciar essa empreitada semanal aqui no Noticiar.com, que chamarei de coluna dos "Acasos de Segunda", devo de início agradecer a acolhida da plataforma ao jornalismo sério e original a que se propõe. Estaremos juntos no esforço, no desenvolvimento e, quiçá, no proveito dessa atividade que, penso eu, é umas das mais importantes atividades do tempo atual: escrever com seriedade sobre o mundo em respeito ao leitor que deseja estar bem informado e que pretende, ele mesmo, construir seu próprio entendimento da atualidade. Estaremos juntos!</span></p>
<p dir="ltr"><span>E, na pegada do jornalismo literário da boa tradição de Rubem Braga (nosso mestre da Crônica), Carlos Heitor Cony e, mais lá atrás, Nelson Rodrigues, todos servindo de inspiração, é inescapável a lembrança de Mafalda, em seu "palácio".</span></p>
<p dir="ltr"><span>Quando seus olhos percorriam as prateleiras de livros, não via tomos ou capas emudecidas. Com olhos miúdos e um pouco cerrados, em função da miopia e de um certo  cacoete, Mafalda via sorrisos jovens que se encontravam, escutava choros de despedida, sentia algazarras de torcidas há muito caladas, comemorava vitórias daqueles que faz tempo existiram.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Por seus olhos passavam pouca luz, mas o suficiente para produzir uma espécie de vinheta nas molduras que imaginava estarem ali dando suporte a letras, palavras estranhas, símbolos tipográficos diversos, todo tipo de papel.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Ela se sentia poderosa quando imersa na biblioteca cultivada por anos de dedicação e a custo de muito envolvimento e investimento pessoal. Deixou passar vários amores que tentaram, em vão, competir com sua paixão pelo "palácio".</span></p>
<p dir="ltr"><span>As prateleiras eram da cor do carvalho, madeira dura capaz de suportar tantas aventuras que nunca foram vividas. Algumas tinham portas de vidro para proteger, sem impedir seu acesso às conquistas que nunca foram realizadas e que, logo, serão esquecidas. Amores não satisfeitos, amizades que não conheceram reciprocidade e olhares que não se reencontraram também estavam guardados naquelas prateleiras. </span></p>
<p dir="ltr"><span>Entranhadas nas páginas amareladas estão ainda marcadas, na pressão da tinta, as memórias de vida e de morte, imaginadas ou não, de muita gente. E Mafalda tem consciência de que, no que resta de sua vida, não conseguirá ler todos os livros do "palácio". O prazer que sente é um paradoxo. Ao mesmo tempo em que se regozija por estar presente, sente frustração pelo pouco tempo que lhe resta para conviver com tantas obras.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Uma voz de agonia ressoa dentro de sua cabeça. </span><em>Não dará tempo de ler tudo isso!</em></p>
<p dir="ltr"><span>Diante de seus olhos há um vasto mundo a descobrir, pensa!, e isso aumenta sua frustração.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Além da parte gráfica, há sons, gostos, cheiros, digitais marcadas em cada página daquele universo. Tudo será abandonado quando ela partir. Ela sabe disso. Ao deixar de ler, deixa-se de pensar e diminuem-se os mundos conhecidos.</span></p>
<p dir="ltr"><em>Quanto desperdício emocional!</em><span> Voltou a escutar a voz irritante em sua mente.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Pela manhã, aos 64 anos, Mafalda seguiu seu ritual construído em décadas de trabalho. Mão esquerda na flanela enquanto a direita empunhou o espanador de plumas esverdeadas. Usava sapatos com solado antiderrapante e máscara contra poeiras e afins. Com o tempo, os livros acumulam uma poeirinha difícil de limpar e Mafalda se tornara, com empenho, uma especialista em cuidar disso.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Para o leitor ter uma ideia do "palácio", são milhares de livros, de todos os tipos, tamanhos, gêneros, escolas teóricas, assuntos, cores e cheiros. Uns de luxo, outros de gosto simples, há até os duvidosos. Todos construções humanas buscando, em certa medida, a eternidade divina. Talvez uma determinada sobrevivência à força do tempo. Todo o conjunto está distribúido pelo espaço bastante amplo de modo aleatório. Algumas paredes têm estrutura em arcos e cores diferentes e isso dá ao lugar um certo ar de capela, com alguns nichos laterais. O "palácio" recebe frequentemente visitantes que se abobalham com surpresa frente à variedade de opções de leitura. </span></p>
<p dir="ltr"><span>Ainda era manhã quando Mafalda caiu no meio do salão central. Alguns acorreram para acudí-la. Sua voz rouca suplicou. </span><em>Cuidem deles!</em></p>
<p dir="ltr"><span>Sua tristeza por não ter conseguido ler todos os livros desvaneceu. Dissipou-se o pavor e surgiu serenidade. No rosto, um distante sorriso. Estava partindo junto aos seus mais queridos.</span></p>
<p dir="ltr"><span>Mafalda está sempre entre os livros toda vez que vou ao Palácio.</span></p>
<p></p>]]></content:encoded>
                                    </item>
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