O que o Studio Ghibli pensa da trend de IA?

Se você entrou nas redes sociais nos últimos dias, provavelmente se deparou com fotos imitando a estética dos animes do Studio Ghibli. Como o Olhar Digital vem reportando, a trend começou devido ao lançamento do novo gerador de imagens da OpenAI, que permite esse tipo de criação de forma fácil e rápida (e, agora, ficou gratuito para todos os usuários).
Rapidamente, a ‘moda’ levantou polêmicas, como a geração de imagens de cunho político (por exemplo, pela Casa Branca). A principal foi o uso das obras estúdio japonês para o treinamento da IA, potencialmente ferindo direitos autorais – sem contar a desvalorização dos trabalhadores humanos.
Mas o que o Studio Ghibli pensa dessa trend?

Studio Ghibli não se pronunciou – mas impede o uso das obras
O estúdio não se pronunciou sobre as imagens geradas por IA, tampouco disponibiliza e-mail de contato para imprensa.
No entanto, o site oficial do Studio Ghibli tem duas seções que podem indicar que não, a empresa não concorda nada com a trend. A primeira é a página de “Termos de Uso“, que traz um item específico sobre “Copyright”, o conjunto de leis que protege os direitos autorais.
Nele, o estúdio deixa claro que todas as obras, incluindo desde fotografias até documentos, estão protegidas por esses direitos. Veja o que diz:
NENHUMA parte de tais fotografias, imagens e documentos podem ser reproduzidos, transmitidos, difundidos, exibidos, explorados ou usados de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação, sistema de fio ou cabo, transmissão ou qualquer sistema de armazenamento e recuperação de informações, sem a permissão prévia por escrito da GHIBLI, exceto de acordo com as disposições da Lei de Direitos Autorais do Japão e quaisquer outras leis relevantes. A modificação dos materiais ou o uso de materiais para qualquer outra finalidade é uma violação dos direitos autorais da GHIBLI e outros direitos de propriedade. Studio Ghibli
Ou seja, se a OpenAI (ou qualquer outra empresa ou pessoa) quisesse treinar seu gerador de imagens com obras do Studio Ghibli, precisaria de uma autorização por parte do estúdio.
O CEO da desenvolvedora, Sam Altman, já havia admitido anteriormente que as ferramentas podem ter sido treinadas com dados que ferem direitos autorais (um problema que não é exclusivo da OpenAI, mas da maioria das empresas de IA).
Na semana passada, quando a trend começou, a companhia rapidamente bloqueou a geração das imagens baseadas no estilo de animes da Ghibli: “Adicionamos um bloqueio que é acionado quando um usuário tenta gerar uma imagem no estilo de um artista vivo”, afirmou.
Não funcionou. Usuários conseguiram contornar o bloqueio e seguiram gerando as imagens inspiradas nos animes. O próprio Altman entrou na ‘brincadeira’ e mudou sua foto de perfil do X (antigo Twitter):

Tem mais. A página “Aviso de direitos autorais para o trabalho” estabelece que todas as obras utilizadas por terceiros devem ser creditadas devidamente. E os créditos estão especificados um a um no site. Veja:

Princípios do Studio Ghibli vão contra a IA
Apesar do estúdio não ter se pronunciado, a própria filosofia da empresa é contrária à inteligência artificial. Vamos explicar.
O Studio Ghibli nasceu em 1985, fundado pelos diretores Hayao Miyazaki e Isao Takahata. Eles se conheceram em 1974, durante a produção do anime Heide, do estúdio Toei. Naquela época, os animes eram curtos, produzidos com baixo orçamento e nem sempre tinham alta qualidade de animação. Eles se uniram com um propósito em comum: produzir animações em longa-metragem de alta qualidade, de acordo com sua vontade e prazos – e assim surgiu o Studio Ghibli.
Com o tempo, a empresa ganhou notoriedade, com sucessos como Meu Amigo Totoro e O Castelo No Céu. Rapidamente, foi na contramão de outras produtoras da época: um de seus grandes diferenciais foi a valorização do trabalho humano, de seus ilustradores e animadores.
Conforme crescia, a companhia deixou de ter equipes freelances para cada filme e contratou equipes fixas, que ganhavam salários dobrados a cada ano. Inclusive, até hoje no site do estúdio é possível encontrar chamamentos para a contratação de profissionais (humanos, não máquinas).
Miyazaki, que se tornou um dos maiores diretores de animação do mundo e encabeçou o Studio Ghibli por muitos anos, sempre destacou a importância da sensibilidade humana na criação das obras, que trazem como temas questões emocionais e psicológicas. Ele é forte defensor da arte feita à mão e critica o uso da tecnologia na criação de animações.
Segundo o Studio Ghibli Brasil, isso ficou claro no processo de produção do filme Princesa Mononoke: ele supervisionou pessoalmente cada uma das 144 mil células de desenho e redesenhou alguma parte de 80 mil delas.
Ou seja, a filosofia do Studio Ghibli está na criação artesanal.
Você pode conhecer mais sobre a história do estúdio japonês e seus principais destaques aqui.

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O que Hayao Miyazaki pensaria da trend?
Miyazaki, que se tornou o principal nome por trás do estúdio, já anunciou a aposentadoria duas vezes (e voltou atrás duas vezes, o que lhe rendeu dois Oscar de Melhor Animação). Atualmente, com 84 anos de idade, o diretor não está à frente da empresa como antes.
Quando a trend surgiu, internautas rapidamente resgataram um vídeo de um documentário de 2016, em que o Miyazaki critica o uso de inteligência artificial. Para ele, uma animação feita por IA é “um insulto à vida em si”.
Since this utter garbage is trending, we should take a look at what Hayao Miyazaki, the founder of Studio Ghibli, said about machine created art. https://t.co/1TMPcFGIJE pic.twitter.com/IvaM9WZL3T— Nuberodesign (@nuberodesign) March 26, 2025
O filho dele, Goro Miyazaki, que também trabalhou em alguns filmes do estúdio, se pronunciou:
- Para ele, um dia a tecnologia poderá substituir animadores humanos. Em entrevista na semana passada à AFP, afirmou que “não seria surpreendente se, em dois anos, houvesse um filme feito completamente por IA”;
- Mas não quer dizer que ele concorda com isso. Miyazaki acredita que a tecnologia “não substituirá a genialidade do seu pai”;
- O artista destacou que a IA pode ajudar a descobrir novos talentos, principalmente em um momento em que a carreira na área de desenho pode ficar difícil. Mesmo assim, os trabalhos humanos são insubstituíveis.
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