Exposição em São Paulo destaca falas e sotaques do Brasil

Como você pronuncia o plural da palavra você? Como vocêssss? Como vocêis? Como vocêish? Os sotaques são apenas um exemplo da imensa diversidade e pluralidade que estão presentes na língua portuguesa no Brasil.
Cada palavra que falamos, cada sotaque e o jeito como falamos nos traz a memória de uma longa história da língua no país. Uma história que tem início com o cruzamento do português com tantas outros idiomas e falares, como a dos povos originários e dos povos negros africanos, mas que continua sendo transformada no dia a dia.
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A mostra é uma grande celebração das diferentes formas de falar em todos os cantos do país, apresentando os mais diversos sotaques. Ela também aborda a capacidade de manipular o som a partir do corpo e como isso se transforma no nosso modo de falar, de criar música e de expressar de maneiras tão diferentes dentro da mesma língua. A curadoria é da cenógrafa e cineasta Daniela Thomas e do escritor e linguista Caetano W. Galindo.
“A exposição partiu da ideia de explorar a diversidade de falares do português do Brasil, mas acabou virando uma coisa um pouco maior em que a gente parte do mais básico de tudo, que é o ar que respiramos e que usamos para produzir os sons da fala e as palavras que dão nome à nossa realidade. A mostra também fala de onde vem essas palavras, como se forma essa língua e como varia dentro do país. Essa é uma viagem longa e densa”, contou o curador, em entrevista à imprensa.
A exposição tem o objetivo de fazer o público pensar no quanto é especial a capacidade de falar. “Teve uma hora em que chamamos a exposição de ‘você’. Porque a ideia era de que você se desse conta do que é a língua em você, que a língua é quase indissociada da própria ideia de si próprio. Como é que você se pensa? Você se pensa por meio da língua. E aqui é um lugar para você se dar conta do quanto a língua faz, do quanto existe e de que ela é uma dádiva da relação humana e do ser humano. Carregamos esse poder de representar, de comunicar e de pensar”, disse Daniela Thomas.
A exposição
A mostra tem início no elevador de acesso à sala de exposições temporárias. É ali que os nomes de alguns dos 5.571 municípios brasileiros serão ouvidos pelo público. A seleção inclui nomes de cidades bastante curiosos como Puxinanã, Tartarugalzinho, Escada e Não-me-Toques, entre outros. Depois, esses nomes se transformarão em poemas, que serão reunidos em um livro a ser lançado durante a exposição. “Agora em junho sai esse livro que se chama As Cidades, que é essa coisa maluca, que são 25 poemas alfabéticos com nomes de cidades brasileiras”, explicou Galindo.
Dentro da sala expositiva, o público irá se deparar inicialmente com duas instalações dedicadas a mostrar como o fenômeno da fala ocorre dentro do nosso corpo. Na primeira delas, os visitantes serão convidados a usar um microfone que foi calibrado para captar sons de pessoas respirando e que está ligado a uma projeção de luz que pulsa conforme esse som é emitido. Na outra sala são apresentadas imagens captadas por uma máquina de ressonância magnética, que mostra como o interior do corpo se movimenta quando são faladas frases de canções brasileiras.
O percurso prossegue com uma sala de detecção de movimento: nesse espaço, uma imagem do visitante em movimento será reproduzida em uma tela e formada por palavras que descrevem cada parte do corpo humano.
“A sala seguinte é sobre a formação do vocabulário do português. A gente tem um grande mapa- múndi, com o Brasil colocado bem no centro, e uma mesa interativa em que as pessoas podem selecionar uma palavra. E aí, a animação da parede vai mostrar os caminhos que essa palavra percorreu vinda da China, da África ou da América do Norte, até chegar ao Brasil”, explicou o curador.
As duas últimas salas da exposição apresentam um quiz (jogo de perguntas e respostas) com vídeos gravados e que vai testar se o visitante conhece os diferentes sotaques falados no Brasil e uma instalação circular, com 12 telas de TV que retratam, cada uma, um interlocutor falando sobre orgulho, pertencimento e até preconceito com sua forma de falar. “Estamos vivendo tempos de cisões, exclusões, polarizações, tensionamentos e esgarçamentos da sociedade. Mas pense no quanto é linda essa ideia de que a gente está ali em torno de 12 pessoas, com cada uma delas falando conscientemente da sua diferença absoluta das outras. E no entanto, isso não estava gerando exclusão, diferença ou recusa, mas um fascínio permanente. Estava todo mundo unido pelo fato de cada um ser completamente diferente do outro. E isso é a chave para todos os problemas da sociedade. Eu, de fato, acho que linguagem é uma arena fenomenal para termos discussões e fazermos experimentos sociológicos”, disse Galindo.
Preconceito linguístico
A expectativa dos curadores é de que a exposição traga reflexões sobre as formas de se falar no país e provoque no público uma sensação de admiração com a diversidade brasileira.
“A língua portuguesa é um conjunto de variedades individuais muito diferentes e que são negociadas constantemente para gerar pertencimento e marcar a singularidade. É uma coisa maravilhosa, especialmente porque não tem ninguém gerindo isso. Não tem lei, não tem multa, não tem sanção. No entanto, tem transgressão. Você pode ser multado pela tua comunidade, você pode ser excluído ou incluído. Esse é um mecanismo maravilhoso - e democrático no limite, porque é totalmente coletivo. Mas, ao mesmo tempo, ele também acaba incorporando toda uma parte feia de preconceito, de exclusão, de demarcação, de estigma e de tabus”, alerta o curador.
O grande antídoto para esses preconceitos - que acabam refletindo formas de poder - é a informação, reforça Galindo. “Se as pessoas estiverem conscientes de que certas marcas do português do Brasil, ao contrário do que a gente ouviu a nossa vida toda, não são tosqueira, ignorância ou bruxaria linguística, mas são simplesmente marcas da história de um idioma, elas podem se empoderar de uma maneira que acho muito relevante. No momento em que você perceber que dizer ‘pobrema’ ou ‘as coisa’ é uma marca da passagem do português pelo universo gigantesco de escravizados africanos, que tiveram que aprender essa língua e fizeram com que ela se adequasse a padrões morfológicos e fonéticos da língua deles, você vai olhar para isso de outra maneira. As línguas evoluem desse jeito", reforçou. “Quanto mais a gente souber disso, entender isso, menos a gente vai se ver presa dessas ilusões que são uma forma de controle e de determinar quem pode e quem não pode, quem pertence e quem não pertence”.
Lançamento de livro
Além da exposição, a programação do museu prevê o lançamento do livro Na Ponta da Língua, de Galindo, no próximo sábado (29), às 17h. No livro, o curador da mostra fala sobre a origem das palavras. O evento, que acontece no museu, incluirá um bate-papo com o autor e uma sessão de autógrafos.
A entrada no Museu da Língua Portuguesa é gratuita aos sábados e domingos. Mais informações sobre a exposição, que ficará em cartaz até setembro, podem ser obtidas no site do museu.
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