Canais ‘red pill’ monitorados pela UFRJ há anos seguem ativos no YouTube

Mar 10, 2026 - 11:30
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Canais ‘red pill’ monitorados pela UFRJ há anos seguem ativos no YouTube

Nove em cada dez canais do YouTube que propagam ódio contra mulheres continuam no ar dois anos após terem sido identificados. Ou seja, 90% das contas mapeadas em 2024 permanecem ativas na plataforma. É o que aponta um levantamento atualizado do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Das 137 páginas monitoradas originalmente, 123 seguem publicando vídeos e alcançando novos usuários em 2026.

A atualização do estudo, divulgada nesta semana, mostra que o ecossistema digital conhecido como “machosfera” não apenas resistiu às denúncias, como se expandiu. Ao analisar mais de 76 mil vídeos, os pesquisadores notaram que a rede funciona como uma engrenagem de hostilidade que ganha força com a falta de bloqueios efetivos. O resultado é a consolidação de um ambiente virtual que normaliza o preconceito sob o disfarce de entretenimento ou aconselhamento.

Audiência da “machosfera” cresce 18,55% no YouTube e consolida mercado de conteúdo misógino

A sobrevivência desses perfis permitiu que a rede de influência ampliasse sua base de seguidores e o nível de interação. Em vez de serem banidos por violar regras de convivência, esses canais encontraram espaço para fidelizar comunidades, transformando a aversão ao gênero feminino num modelo de negócio.

Os números detalham o avanço desse público: houve um salto de 18,55% no total de inscritos entre 2024 e 2026. O dado indica que o discurso misógino atrai novos usuários diariamente. A regularidade das postagens serve como combustível para os algoritmos de recomendação, que mantêm essas contas em evidência para quem consome conteúdos similares.

Cena de Matrix na qual Neo precisa escolher entre tomar a pílula azul e a pílula vermelha
Na “machosfera”, “red pill” é uma metáfora que pega um conceito da franquia Matrix e o distorce para justificar supremacia masculina (Imagem: Reprodução/Warner Bros)

A base ideológica desses grupos é o conceito de “red pill”, metáfora que pega conceito apresentado na franquia Matrix e o distorce para justificar a supremacia masculina e subestimar os direitos das mulheres. O vocabulário utilizado busca desumanizar o gênero feminino com termos pejorativos, como o neologismo “merdalher”. Nos vídeos, as mulheres são descritas como seres de “potencial demoníaco” e movidas por um suposto “egoísmo sentimental”.

O sistema gera lucro direto para os criadores, que são remunerados pelo YouTube por meio da monetização por engajamento. E o negócio se estende para fora da rede social com a venda de livros e cursos que prometem ensinar táticas para “desarticular trapaças amorosas”.

A análise final do NetLab expõe uma fragilidade na moderação de conteúdo digital. Afinal, mesmo com o mapeamento detalhado das violações entregue há dois anos, a estrutura tecnológica ainda abriga a maioria da rede original.

O Olhar Digital pediu posicionamentos sobre o assunto para o Google e o YouTube.

(Essa matéria usou informações de CNN Brasil, G1 e O Globo.)

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