Escolho acertar
Que falta faz um balcão de padaria!
Davi sabia que deveria comprar o pão o quanto antes. Seu pai chegaria logo do trabalho e o dinheiro dado pela mãe estava no bolso de Davi desde cedo. Ele se esqueceu de ir à padaria no início da tarde e a noite estava se aproximando. Seu pai ficaria zangado e lançaria labaredas se chegasse em casa e não encontrasse o pãozinho.
Davi pediu. O padeiro atendeu. Logo no caixa sacou o dinheiro. Pagou. Recebeu troco de dois reais. Montou sua bicicleta e retornou para casa.
Ufa! Deu tempo. Quando meu pai chegar, o pãozinho estara na mesa. Sua tranquilidade estava garantida.
Sua mãe, observadora que era, pediu de volta o troco. Havia dado ao menino dez e o pão deveria custar nove, daí ser devido um para acumular para o dia seguinte. Davi! Cadê o troco?
O menino sacou os dois do bolso e ambos, menino e mamãe, perceberam que o troco estava errado, errado para mais. Vá já devolver! Traga-me o troco certo. Fale com o padeiro que pedimos desculpas pelo transtorno. Devolva o dinheiro que veio a mais. Ordenou a mãe.
De cima de seus dez anos, Davi não entendeu. Afinal, o dinheiro a mais não era roubado. Erro do caixa da padaria, que desatento deixou passar. Qual mal em ficar com os dois de volta? Pensou.
No caminho, Davi encontrou Amando, dois anos mais velho. Que besteira, Davi! Meu pai me ensinou que nesses casos o dinheiro é do mais esperto. Fique com o dinheiro. Ninguém vai saber.
Dois no bolso, Davi retornou para casa.
Davi, devolveu?
Devolvi, mamãe!
No dia seguinte, caindo a noite, Juvenal chegou à padaria e, cumprimentando todos, deixou um largo sorriso bigodudo. O pai de Davi sabia ser simpático. Pediu nove pães como de costume. Padeiro atendeu. O caixa recebeu seu dinheiro. Tudo tranquilo.
Antes de partir, Juvenal falou alto: Manuel, desculpe pelo transtorno do troco de ontem. Ainda bem que Davi já trouxe a sobra. E sorriu!
Manuel franziu a testa, coçou a barba. Passou a mão na cabeleria grisalha. Respondeu. Tudo está bem!
Seguindo a rotina, no dia seguinte, Davi chegou à padaria e pediu os pães do pai. Manuel chamou o menino no canto do balcão. Você mentiu para seu pai? Disse que me devolveu o troco dado errado?
É que achei que não havia problema, pois o erro não foi meu!
Manuel falou baixo, mas com firmeza. Conheço seu pai desde a infância. Homem correto e de palavra. Amigo de todos aqui. Seu pai sabendo que você mentiu, terá uma tristeza grande para ele e para sua família. Você vai continuar no erro?
Davi lacrimejou os olhos e devolveu o dinheiro indevido. Desculpa, achei que não era importante.
Não é o valor do erro que importa. É sua consciência de jovem que medirá seu caráter futuro. Assim como criticamos políticos e autoridades quando metem a mão no bolso do dinheiro público, também devemos rechaçar o comportamento miúdo que se aproveita do outro colega, do vizinho, na escola ou no trabalho, no dia a dia da vida. Entende isso?
Entendo!
Quando se aposentaram, Juvenal e Manuel cultivaram o hábito de tomar diariamente um cafezinho na mesa em frente à padaria. Comentavam a política, os transeuntes e seus hábitos estranhos, a fofoca do bairro e curiosidades da vida. Estavam vivendo a aposentadoria tanto tempo sonhada e tudo ia bem até o dia em que perceberam que, dos vencimentos percebidos como aposentados, estava sendo desvidado dinheiro para instituições que nem conheciam.
Até agora os dois aposentados não foram ressarcidos nem os criminosos e seus políticos de relacionamento foram punidos. De certo, alguns jovens envelheceram sem terem tido a experiência de serem chamados a devolver um troco recebido errado.
Um dia alguém disse: que falta faz um balcão de padaria!
Qual é a sua reação?
Como
0
Não gosto
0
Amor
0
Engraçado
0
Uau
0
Triste
0
Bravo
0
Comentários (0)