O palácio de Mafalda

Mafalda cuida do universo

17 Agosto 2026 - 10:54
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O palácio de Mafalda
Biblioteca dos sonhos

O palácio de Mafalda

(17 de agosto de 2026)

 

 Ao iniciar essa empreitada semanal aqui no Noticiar.com, que chamarei de coluna dos "Acasos de Segunda", devo de início agradecer a acolhida da plataforma ao jornalismo sério e original a que se propõe. Estaremos juntos no esforço, no desenvolvimento e, quiçá, no proveito dessa atividade que, penso eu, é umas das mais importantes atividades do tempo atual: escrever com seriedade sobre o mundo em respeito ao leitor que deseja estar bem informado e que pretende, ele mesmo, construir seu próprio entendimento da atualidade. Estaremos juntos!

E, na pegada do jornalismo literário da boa tradição de Rubem Braga (nosso mestre da Crônica), Carlos Heitor Cony e, mais lá atrás, Nelson Rodrigues, todos servindo de inspiração, é inescapável a lembrança de Mafalda, em seu "palácio".

Quando seus olhos percorriam as prateleiras de livros, não via tomos ou capas emudecidas. Com olhos miúdos e um pouco cerrados, em função da miopia e de um certo  cacoete, Mafalda via sorrisos jovens que se encontravam, escutava choros de despedida, sentia algazarras de torcidas há muito caladas, comemorava vitórias daqueles que faz tempo existiram.

Por seus olhos passavam pouca luz, mas o suficiente para produzir uma espécie de vinheta nas molduras que imaginava estarem ali dando suporte a letras, palavras estranhas, símbolos tipográficos diversos, todo tipo de papel.

Ela se sentia poderosa quando imersa na biblioteca cultivada por anos de dedicação e a custo de muito envolvimento e investimento pessoal. Deixou passar vários amores que tentaram, em vão, competir com sua paixão pelo "palácio".

As prateleiras eram da cor do carvalho, madeira dura capaz de suportar tantas aventuras que nunca foram vividas. Algumas tinham portas de vidro para proteger, sem impedir seu acesso às conquistas que nunca foram realizadas e que, logo, serão esquecidas. Amores não satisfeitos, amizades que não conheceram reciprocidade e olhares que não se reencontraram também estavam guardados naquelas prateleiras. 

Entranhadas nas páginas amareladas estão ainda marcadas, na pressão da tinta, as memórias de vida e de morte, imaginadas ou não, de muita gente. E Mafalda tem consciência de que, no que resta de sua vida, não conseguirá ler todos os livros do "palácio". O prazer que sente é um paradoxo. Ao mesmo tempo em que se regozija por estar presente, sente frustração pelo pouco tempo que lhe resta para conviver com tantas obras.

Uma voz de agonia ressoa dentro de sua cabeça. Não dará tempo de ler tudo isso!

Diante de seus olhos há um vasto mundo a descobrir, pensa!, e isso aumenta sua frustração.

Além da parte gráfica, há sons, gostos, cheiros, digitais marcadas em cada página daquele universo. Tudo será abandonado quando ela partir. Ela sabe disso. Ao deixar de ler, deixa-se de pensar e diminuem-se os mundos conhecidos.

Quanto desperdício emocional! Voltou a escutar a voz irritante em sua mente.

Pela manhã, aos 64 anos, Mafalda seguiu seu ritual construído em décadas de trabalho. Mão esquerda na flanela enquanto a direita empunhou o espanador de plumas esverdeadas. Usava sapatos com solado antiderrapante e máscara contra poeiras e afins. Com o tempo, os livros acumulam uma poeirinha difícil de limpar e Mafalda se tornara, com empenho, uma especialista em cuidar disso.

Para o leitor ter uma ideia do "palácio", são milhares de livros, de todos os tipos, tamanhos, gêneros, escolas teóricas, assuntos, cores e cheiros. Uns de luxo, outros de gosto simples, há até os duvidosos. Todos construções humanas buscando, em certa medida, a eternidade divina. Talvez uma determinada sobrevivência à força do tempo. Todo o conjunto está distribúido pelo espaço bastante amplo de modo aleatório. Algumas paredes têm estrutura em arcos e cores diferentes e isso dá ao lugar um certo ar de capela, com alguns nichos laterais. O "palácio" recebe frequentemente visitantes que se abobalham com surpresa frente à variedade de opções de leitura. 

Ainda era manhã quando Mafalda caiu no meio do salão central. Alguns acorreram para acudí-la. Sua voz rouca suplicou. Cuidem deles!

Sua tristeza por não ter conseguido ler todos os livros desvaneceu. Dissipou-se o pavor e surgiu serenidade. No rosto, um distante sorriso. Estava partindo junto aos seus mais queridos.

Mafalda está sempre entre os livros toda vez que vou ao Palácio.

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José Santhiago

Historiador, Ghost-Writer, Revisor de textos, Advogado e pós em Jornalismo Digital. Observador de gente e amante da vida. Todos temos o direito de narras as experiências a partir de nossas próprias percepções. O Jornalismo Literário merece seu espaço.

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