Santinhos

O período eleitoral e as mudanças climáticas e estéticas da cidade.

14 Setembro 2026 - 18:10
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Lembro de chegar em algumas igrejas e próximo à porta ter uma mesinha repleta de santinhos. De um lado a imagem do Santo ou da Santa de devoção e do outro a sua oração. Geralmente eram deixados ali por pessoas que haviam feito promessas e conseguido obter suas graças. Um parente curado. A conquista da casa própria. A aprovação no vestibular. 

Lembro também dos santinhos das missas de sétimo ou de trigésimo dias. A foto do falecido e uma frase para homenageá-lo. Estes foram substituídos por camisetas com fotos do finado e que, perdoem-me a sinceridade, não acho legal. Uma vez recebi mensagem de um viúvo perguntando os tamanhos de nossas camisetas e dando a conta para transferirmos o dinheiro. Todos na missa de sétimo dia estavam com a camiseta com uma foto da pessoa amada, mas eu me senti extremamente incomodada com aquilo. Primeiro, eu não queria uma camisa com a foto dela. Queria as fotos que tínhamos e me era suficiente. Segundo, porque nem fui questionada se queria comprar. E, terceiro, o que fazer com a camiseta após a missa? Eu não queria dormir vestida com ela. Não iria para a academia. Não iria ao shopping. E não poderia dar a um morador de rua. Então, foi uma experiência que não gostei, para dizer o mínimo. Preferia ter recebido um santinho… 

Da mesma forma que o vestibular não existe mais, os santinhos dos Santos sumiram das igrejas. E até o santinho dos falecidos também não vi mais. Até…

Até estarmos novamente em período eleitoral! Os cruzamentos da cidade são tomados agora por pessoas distribuindo os santinhos dos candidatos. Com excesso de harmonização facial ou Photoshop (ou mesmo os dois!), até os candidatos 70+ têm o mesmo rostinho lisinho dos candidatos de 20 anos. E é um tal de baterem nas janelas dos carros para entregar os santinhos… 

Isso começa logo cedo, junto com as bandeirolas presas aos canteiros que parecem brotar no gramado junto com o nascer do sol. Passei por um cruzamento que parecia um festival junino de tanta bandeirola de candidato que tinha.  E eu só conseguia observar os nomes e suas escritas “diferentes” ou mesmo o excesso de descaracterização das fotos pelo uso do Photoshop.

Será que alguém conquista algum voto assim?

Tenho minhas dúvidas. O que sei é que não vejo a hora deste período terminar e a cidade ficar mais limpa.

E sei também que acho extremamente irônico os políticos distribuírem seus santinhos…

Santinhos?



Bárbara Seabra 

Escritora e autora de “O diário de uma gordinha” e “A janela do isolamento”

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