ZÍPER
Uma mulher. Um vestido verde. O passar dos anos. A gentileza com seu corpo.
Empurro a porta de vidro e o ar mais frio da loja me abraça. Decido passar um tempo ali fugindo do calor. Olho as araras repletas de roupas em diferentes cores e começo a vaguear por entre elas. Passo os dedos pelos tecidos. Ásperos, sedosos, macios, rígidos. Uma peça me chama atenção. Um vestido verde. Sem detalhes. Sóbrio. Pego-o no colo e o abraço para sentir se me aconchega. Parece que sim.
Continuo andando pela loja enquanto observo discretamente uma criança brigar com a mãe, pois queria tomar sorvete. Esqueço-me de mim um pouco. Paro diante da vitrine de bolsas e questiono se preciso de mais uma. Fico parada não sei por quanto tempo até que uma voz me convida à realidade:
- Vai experimentar?
Sem graça, digo que sim. Esqueci-me que o vestido estava em minhas mãos.
Entro no provador. Começo a tirar lentamente as minhas roupas. Vejo uma cicatriz perto do umbigo. Outra na altura da cintura. Cirurgias passadas… Demoro-me olhando meu corpo como se o visse pela primeira vez. Seria tão rígida nas exigências com ele se fosse de outra pessoa? Seria mais gentil com suas marcas, seus sinais, a perda de firmeza da pele causada pelo passar dos anos? A luz amarela do provador começa a aquecer minha pele. Lembro que isso é um mito. Por que sinto esse calor então?
Talvez por ter me visto pela primeira vez em tanto tempo. Talvez por ter lutado em me aceitar como sou.
Visto o vestido verde e percebo que ele tem um zíper enorme nas costas. Não consigo fechar sozinha. Contorço-me para um lado. Contorço-me para o outro lado. Está quase lá, mas ainda faltam três ou quatro centímetros.
Saio do provador e encontro outra cliente. Peço-lhe gentilmente que me ajude nessa empreitada. Ela sorri, fecha o vestido e diz que ele foi feito para mim. Permiti-me acreditar nela. Retribuo o sorriso e volto ao provador para me olhar com a gentileza que esta estranha me viu. Passo no caixa, faço o pagamento. Trago-o para casa. Penduro em um cabide e o esqueço por semanas.
Então, em um domingo, após um banho demorado, hidratante no corpo e o cabelo molhado, encontro-o dobradinho. Decido usá-lo.
Visto-o e, mais uma vez, percebo que me contorço para fechar o zíper sozinha. Esforço em vão. Termino de passar um lápis preto nos olhos. Coloco um anel, brincos grandes e borrifo o perfume preferido nos pulsos e no pescoço. Vou até a sala e peço ao meu esposo para fechar o zíper.
Ele me olha com os mesmos olhos do início do relacionamento e diz:
- Você está linda.
E assim percebo que as marcas de que tanto reclamo fazem parte de quem sou. E o vestido verde me ensinou a aceitar que não preciso, e nem devo!, dar conta de tudo sozinha.
Bárbara Seabra
Escritora e autora de “O diário de uma gordinha” e “A janela do isolamento”
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