O seu passado já foi o meu futuro
O futuro, interpretado pelo domínio de tecnologias, torna-se passado para novas gerações.
O seu passado já foi o meu futuro
Fiquei sabendo que a prática conhecida como fotografia post-mortem foi muito difundida na Grã-Bretanha da Era Vitoriana, durante o século XIX, principalmente entre 1840 e 1880. Tal atividade também foi praticada nos Estados Unidos e em outras partes da Europa.
Isso me pôs algumas interrogações na cabeça. Na mesma semana, assisti a um vídeo sobre astronomia em que o especialista informou que muitas das luzes que vemos no céu à noite são "luzes fantasmas", porque não sabemos ao certo, por causa das distâncias gigantescas, se esses mundos e as vidas que possam existir ou ter existido neles continuam lá. Talvez sejam apenas luzes que nos chegam muito depois do tempo em que elas se foram da existência.
E ontem, acompanhado de minha filha, fui visitar uma exposição de discos de vinil (LP's), CD's (compact disc), fitas VHS, radiolas, vitrolas, tevês de tubo, isqueiros Zippo, canivetes suícos, relógios com ponteiros, cucos abandonados, canetas Montblanc com tintas azuladas, máquinas de escrever de variados tipos (alavanca, margarida, bola, de teclas de marfim e outras de plástico).
Em um stand bem apetrechado de quinquilharias, minha filha empacou. Queria que o atendente explicasse o que era o aparelho de fac-símile (fax). A explicação pormenorizada, durante uns 40 minutos, foi enfadonha para meus ouvidos, mas para ela foi um suprassumo de história e curiosidade.
Quer dizer, então, que vocês enviavam fotos em preto e branco de baixa qualidade, de um telefone para outro, utilizando papel térmico? Que massa!
Andando por outros corredores, ela conheceu lâmpadas halógenas, placas luminárias com dicróicas, sinalização pintada com esmaltes reluzentes e aparelhos de rádio-despertador, cujos botões snozze interromperam as melhores sonecas da juventude de muitos.
Como são interessantes essas antiguidades. Muita coisa feia. Não imagino como usavam essas tralhas. Nem sei como eu usaria essas geringonças. Ufa! Meu telefone plus faz quase tudo.
Ela, jovem e habituada à vivência do mundo digital, encantou-se, por curiosidade, com tantos dispositivos antigos. Já passara pelo corredor dos carros traquitanas, velhos calhambeques restaurados por insistentes colecionadores. Estava no corredor das bicicletas. Coloridas e com formatos do rebuscado ao prateado indicavam o tempo das duas rodas da Art Nouveau e do futurismo dos Jetsons (The Jetsons), que foi uma das séries animadas mais icônicas da história da televisão e que estreou originalmente em 23 de setembro de 1962.
Antes de deixarmos a exposição, sentamos-nos para um breve café. A abóbada do recinto apresentava uma pintura de um céu estrelado descascado. As paredes cor de musgo sustentavam retratos antigos de pessoas do final do século XIX e início do XX. O café foi servido demoradamente em uma bandeja de prata, que foi colocada sobre uma mesinha redonda de bar, cujo tampo era um mosaico de pedrinhas de vidro translúcido e multicolorido.
Senti o cheiro do café forte e impetuoso e, pasmem!, senti-me no paraíso do estilo e bom gosto. A xícara de porcelana trazia sob sua base o carimbo impresso sob chamas das duas espadas coloridas de azul. Era uma Meissen alemã original, coisa fina que poucos podem apreciar. Parece que o café ficou ainda mais gostoso quando foi acompanhado de balinhas de anis. O barista me confidenciou que eram Pastilhas Barkleys Aniseed. Foi um delírio para o paladar.
Tudo é muito interessante, mas não sei como vocês viviam sem as redes sociais, sem as IA's generativas, sem as videochamadas, sem os intântaneos de imagem, sem os bate-papos, sem as reuniões on-line, sem os mapinhas coloridos dos GPS's. Minha filha falou de modo sarcástico.
Um certo orgulho bateu no meu peito.
O seu passado já foi o meu futuro. Retruqei com uma pontada de nostalgia na fala.
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