Simeão está de volta
Simeão passa a eternidade escutando as pessoas.
Simeão tinha o hábito de escrever à caneta preta os dias numerais do mês nas embalagens dos comprimidos obrigatórios.
Com mãos seguras de quem trabalhou durante décadas, primeiro datilografando e depois digitando em teclas alfabéticas de todas as marcas, sempre priorizando o arranjo QWERTY, Simeão acostumou-se a ler e digitar textos de outras pessoas. Essa era sua profissão: registrar no papel, através da máquina, o pensamento de outrem. A escrita, mais que uma ferramenta de comunicação, era um ritual de encantamento das memórias.
Em algumas ocasiões, se necessitasse de dinheiro extra, fazia as vezes de registrador de atas, trabalhando diretamente do ouvido. Pessoas falavam em reuniões ao som dos dedos de Simeão machucando as teclas. Tudo em tempo real, analógico e instantâneo.
Simeão agora estava aposentado, mas seus dedos continuavam à procura de novas teclas de letras.
Por tantos anos nesse afazer, Simeão tornou-se um ótimo ouvinte. Talvez pela idade, talvez pelo uso demasiado prolongado, suas orelhas eram enormes. Tudo captavam.
Ao retirar um comprimido do blister, guardava a parte rasgada contendo o número do dia e a colava em uma folha. Assim, não corria o risco de ingerir dois dos mesmos remédios em um único dia. Seguia essa rotina, que nomeara como "metodologia da pílula". Sabia exatamente quais os dias que faltavam para que necessitasse comprar novas caixas.
Simeão, então, gostava de seguir hábitos e tinha o dom de escutar estranhos.
Aqui começa sua aventura.
Logo que seu corpo esfriou, seguiu para o salão do julgamento. Em cada canto, uma fila. A do inferno estava enorme. Preferiu a do céu.
Antes de qualquer conversa, identificou todas as sinalizações, horizontais e verticais. Observou os trajes e trejeitos das almas que estavam à espera do chamado para o julgamento.
A fila andou ligeiro. Seu nome foi chamado e o anjo atendente fez sinal para que se aproximasse do púlpito branco a fim de declarar seus pecados.
Simeão não disse nada. Não se via como pecador. Calado, não era de falar de outras pessoas. Passara a vida escutando e digitando. Trabalhara sempre pelo salário ofertado, nunca questionando. Solteiro e celibatário, não gerou corvos nem querubins. Aceitou a vida como a recebeu. Acomodou-se a comer o necessário, a vestir o essencial e a falar pouco, eximindo-se de ter opiniões.
Simeão não sabia se passara pela vida ou se a vida passara por ele. Ele era uma pessoa mediana.
O anjo redirecionou sua ficha para outra fila. Explicou com desdém uma resposta rápida: seu lugar não é aqui.
Simeão ouviu, olhou para os lados, balançou os ombros com um pequeno sorriso sem graça no canto da boca. Encarou o anjo. Abaixou a cabeça e saiu da frente do púlpito celeste. Caminhou pelo salão e se dirigiu à fila infernal.
Enquanto caminhava pela extensão, praguejou contra a situação. Afinal, não se importava muito com seu destino. Onde quer que estivesse na eternidade, ainda seria um ótimo ouvinte e saberia registrar tudo o que ouvisse. Sua maior preocupação era saber com que tipo de máquinas poderia contar lá naquela eternidade.
O Diabo estava cansado da companhia dos datilógrafos do século XX. Eles tinham a mania de registrar tudo, e o que o tinhoso mais detestava era ver gente-alma anotando promessas e juras.
Quando soube que Simeão estava na fila para entrar no inferno, após ter sido preterido pelo anjo atendente do outro lado eterno do salão, o Diabo não teve dúvida: se não o querem lá, por que o terei aqui?
Simeão sentiu no peito o choque elétrico do desfibrilador do serviço de atendimento de urgência. Estava deitado na calçada da rua de casa. O calor no corpo ressurgiu. Sentiu o gosto de saliva voltando. Os olhos se abriram. Sua mão sentiu no bolso a cartela de comprimidos que, feita em plástico com pequenas bolhas transparentes, guardava as cápsulas do medicamento daquele dia, ainda não tomado. Uma lágrima salgada rolou por seu rosto e manchou a gola da camisa amarelada de tanto uso.
Uma voz do além pode ser ouvida:
Simeão está de volta para ouvir o mundo.
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