FIAT 147
Um carro. Muitas crianças. E tantas memórias de infância.
No fim da tarde de uma sexta-feira paramos em uma doceria. Olhávamos preguiçosamente o cardápio sabendo que pediríamos o de sempre. Ele, uma coxinha e uma banoffee regados a café. Eu, uma tartelete de morango e um croissant, com um lindo copo de pink lemonade. Fizemos o pedido e olhamos para o trânsito que começava a se intensificar, como se todos tivessem um destino urgente a chegar. Entre freios e buzinadas, um carrinho nos chama a atenção. Um Fiat 147!
Nos olhamos surpresos. Ainda existem deles no trânsito? Engraçado... Não me surpreendem os Fuscas, mas o Fiat 147 me pareceu um milagre da indústria automobilística ter um ainda funcionando.
Falei a Flavinho que uma tia, mãe de quatro filhos, tia Nilzete, tinha um na nossa infância. Como cabiam todos os filhos?, nos perguntávamos rindo. Era uma época, acho que início dos anos 1980, em que não usávamos cinto de segurança, os carros tinham cinzeiros acoplados nas portas, as crianças que não cabiam no banco traseiro eram postas no porta-malas e não havia limite de passageiros. A quantas festinhas de aniversário fui na mala da Belina de um vizinho nosso, Seu Remo, dividindo a mala com muitas outras crianças? Perdi as contas…
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Como sobrevivemos a isso tudo?, perguntei assustada.
Lembramos de nossos filhos pequenos, no início dos anos 2000, com cadeirinhas de bebê afiveladas no banco traseiro e com cintos de segurança testados mil vezes. A alegria deles de poderem sentar no banco do carona apenas após completarem dez anos de idade. Enquanto nós, crianças que nasceram na década de 1970 sobrevivemos a esse uso “interessante” dos carros, às balas Soft redondas e escorregadias que causaram diversos sustos, às pitombas vendidas nas portas das escolas que causavam vários engasgos. Sobrevivemos ao transporte escolar feito em Kombis sem segurança alguma e, mais precisamente, eu e meus primos sobrevivemos às idas de caminhonete de Matinhas a Campina Grande com nosso avô Lelê, o pior motorista de todos os tempos, na caçamba, numa estrada de terra e passando por quebra-molas sem diminuir a velocidade. E mais! Nossa vovó Lolô distribuindo AAS infantil aos netos quando chorávamos por qualquer motivo. Vale ressaltar que eu era conhecida como Manteiga Derretida, então, podem avaliar quantos comprimidinhos eu ganhava nas férias…
Enfim, entendi que aquele Fiat 147 andando em pleno ano de 2026 é um milagre automobilístico, mas a nossa geração também sobreviveu por puro milagre…
Bárbara Seabra
Autora de “O diário de uma gordinha”, “A janela do isolamento” e “Não me lembro”
Escritora
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