TRAVESSO TRAVESSÃO
O uso da IA e as mudanças na escrita. Será que devemos abrir mão do travessão?
Tem livros que lemos mais de uma vez. Seja porque nos apaixonamos por ele, como O Pequeno Príncipe. Seja para curtir a saudade, como a saga de Harry Potter. Seja para entender melhor, como Três ensaios sobre a sexualidade, de Freud. Encanto-me com as novas descobertas que me surpreendem quando releio o Pequeno Príncipe. Será que nunca observei aquela passagem ou eu mudei mais uma vez? Em Freud vejo a construção de teorias que ele tentava corrigir e recorrigir, buscando uma perfeição que não encontrou. Então, ele diz e repensa partes de suas teorias e seus textos são cheios de notas de rodapé, mostrando como ele retornava para melhorar.
Entretanto…
Entretanto, não são as notas de rodapé que me atraem neste momento, mas sim o uso de travessão. Muitos deles. Aqueles pares separando destemidamente um trecho do texto, dando explicação mais profunda, questionando ou delimitando uma ideia.
Penso imediatamente na IA. A Inteligência Artificial nos roubou muito em relação à escrita. Escuto pessoas indignadas que receberam mensagens de parabéns feitas por IA. Perdemos espontaneidade! Vejo professores militando contra o uso de IA nos trabalhos acadêmicos. Perdemos o raciocínio lógico! Percebo em mim o incômodo em aguardar o aplicativo rodando meu artigo científico para dizer se estava livre do uso da IA. Perdemos a coragem de escrever bem sem sermos rotulados de que foi a IA!
Porém, o que me incomoda mais nisso tudo é perder a oportunidade de usar o travessão!
Parece que o travessão virou sinônimo de IA e não é verdade. Tem coisa mais gostosa do que você dialogar com o leitor e entre um tracinho e outro explicar seu ponto de vista? Fazer uma pausa na longa frase e explicar se discorda ou não daquilo que foi previamente exposto? Enfatizar uma ideia dando um momento de reflexão para quem lê?
Olhei para aquele texto de Freud e pensei em como ele foi feliz em escrever num período onde os julgamentos eram outros e onde o travessão era apenas uma ferramenta de estilo e genialidade - e muito usada!
Bárbara Seabra
Autora de “O diário de uma gordinha” e “A janela do isolamento”
Escritora
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