Carta ao João após as eleições
Caro João, quando jovens, sabíamos que era importante sermos questionados. Lembra disso? Fazia parte do método dialético que tanto defendemos.
Carta ao João após as eleições
(27 de outubro de 2026)
João, agora que a disputa por votos terminou e as urnas foram encerradas, precisamos conversar sobre o que falamos no auge da propaganda a respeito da democracia, do jornalismo e da difícil arte de ouvir quem pensa diferente.
Você me conhece há muitos anos e sabe que acompanhei de perto mais de uma eleição presidencial no Brasil. Vi debates acalorados, discursos inflamados, promessas, acusações e uma sociedade que parecia cada vez mais dividida. Como estudioso da Comunicação e da História, procurei compreender os acontecimentos, ouvir diferentes vozes e acompanhar os fatos com a atenção que um momento tão importante exige. Mas, quando a apuração terminou e os resultados foram anunciados, percebi que havia uma questão muito maior do que saber quem havia vencido.
Como continuaremos convivendo uns com os outros depois de todo o conturbado processo?
Segundo os números apresentados pela Justiça Eleitoral sobre o resultado da eleição de 25 de outubro de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva teria sido reeleito com 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro teria recebido 48,21%. Lula foi reeleito com 64.256.232 votos. Flávio recebeu 59.826.041 votos. A diferença, em números absolutos, foi de 4.430.191 votos. Levando em conta que o Brasil tem uma população estimada em 214.211.951 habitantes, segundo as "Estimativas da População – 2026", divulgadas pelo IBGE (com data de referência em 1º de julho de 2026), a diferença percentual representa apenas 2,068% de toda a população.
A diferença é muitíssimo pequena, mas suficiente para definir o resultado de uma disputa presidencial. O que esses números não conseguem mostrar, entretanto, é a dimensão das diferenças que continuarão existindo entre milhões de brasileiros.
Foi pensando nisso que escrevi esta carta a você, João, a quem considero meu melhor amigo.
Nós nos conhecemos há muitos anos. Compartilhamos histórias, alegrias, dificuldades e inúmeras conversas que atravessaram diferentes momentos de nossas vidas.
Lembra que choramos juntos quando a Emenda Dante de Oliveira foi rejeitada pelo Congresso? Ficamos apreensivos com os laudos médicos de Tancredo. Murramos a mesa ao ver os fiscais do Sarney fechando comércios sem base legal, tudo baseado em falas de um fulano tal de Bresser. Aplaudimos quando a faixa presidencial foi entregue ao Collor, pois a democracia estava engatinhando e, depois, passada sorrateiramente ao Itamar. Tivemos que estudar Economia para entender como utilizar as URVs para a conversão para o novo real. Depois de tantos anos de observação política, nunca deixamos de nos envergonhar pelos escândalos, cada vez mais volumosos, que acometeram o sistema político nacional.
Mas existe algo em que frequentemente discordamos: a política. Temos interpretações distintas sobre os acontecimentos do país, enxergamos determinadas questões por perspectivas diferentes e nem sempre concordamos sobre os caminhos que o Brasil deveria seguir. Ainda assim, João, nunca deixamos de ser amigos.
Depois de acompanhar toda aquela disputa eleitoral, senti vontade de procurá-lo. Não para comemorar uma vitória, lamentar uma derrota ou tentar demonstrar que minhas opiniões são mais corretas do que as suas.
João, quero apenas conversar. Talvez entender um pouco melhor como você viveu os recentes acontecimentos e, principalmente, descobrir se ainda somos capazes de discutir política sem transformar nossas diferenças em um conflito pessoal.
Enquanto pensava se seria possível essa conversa, João, lembrei-me de Hannah Arendt e de algumas reflexões presentes em sua obra A Condição Humana. A filósofa compreendia a pluralidade como uma condição fundamental da existência política. Compartilhamos um mesmo mundo, mas não o enxergamos necessariamente da mesma maneira. Cada pessoa carrega experiências, valores, expectativas e interpretações que influenciam sua maneira de compreender a realidade. Essa ideia me parece especialmente importante para me dirigir a você, principalmente quando pensamos na democracia, em seus diferentes sentidos e conceitos.
Afinal, se todos precisassem concordar sobre tudo, qual seria a necessidade do debate público? A democracia não existe para eliminar as diferenças, mas para permitir que pessoas diferentes participem da construção de uma sociedade comum e, depois do debate político, sejam capazes de conviver.
É justamente isso que me faz ter essa conversa com você.
Eu sabia que provavelmente discordaríamos em vários momentos. Talvez você questionasse algumas das minhas interpretações e eu fizesse o mesmo com as suas. Vamos tentar experimentar algo que parece cada vez mais raro? Ouvir uma opinião diferente sem sentir a obrigação imediata de combatê-la?
Não significa aceitar qualquer argumento sem questionamento, muito menos abandonar aquilo em que acreditamos. Significa reconhecer que discordar de alguém não nos dá o direito de desrespeitá-lo. Acredito que nossa amizade nos garantirá um debate de nível superior, sem agressões.
Durante minha observação sobre a cobertura eleitoral, percebi como essa distinção frequentemente desapareceu. Nas redes sociais, principalmente, opiniões políticas eram utilizadas para classificar pessoas como boas ou más, inteligentes ou ignorantes, dignas ou indignas de respeito. Em muitos casos, bastava alguém declarar seu voto para que passasse a ser tratado como inimigo.
Infelizmente, assisti a uma postagem em uma rede social em que a emitente afirmou que o adversário político deveria ser tratado como "insano mental" ou como "pessoa com câncer", relembrando-me da triste prática de segregação e morte praticada na Alemanha na década de 1940.
O mais preocupante era perceber que esse comportamento não estava restrito aos eleitores. Parte da própria comunicação pública e das empresas de mídia e de imprensa parecia reproduzir a lógica de uma disputa permanente, na qual o objetivo deixou de ser compreender os acontecimentos e passou a ser derrotar e eliminar o outro, dissidente ou adversário, qualquer que fosse a designação.
Como observador da Comunicação, isso me incomodou e continua a me incomodar profundamente.
A imprensa possui uma responsabilidade que não termina quando as urnas são fechadas. Precisamos fiscalizar governos, investigar irregularidades, verificar informações e questionar discursos de qualquer grupo político. Mas também precisamos reconhecer que o resultado de uma eleição não transforma automaticamente os vencedores em pessoas moralmente superiores, assim como não retira dos derrotados sua dignidade ou seu direito de participar da vida pública.
Uma eleição define quem exercerá o poder por determinado período. Não define quem merece ser ouvido.
Outro aspecto que me chamou a atenção foi a facilidade com que discursos de revanche surgiram após a disputa. Em vez de compreender a vitória como uma responsabilidade política, algumas manifestações parecem tratá-la como uma autorização para humilhar aqueles que haviam escolhido outro candidato.
Esse comportamento merece atenção porque a democracia depende da legitimidade da oposição. Quando passamos a considerar que o adversário político não deveria sequer existir, deixamos de defender a convivência democrática e começamos a nos aproximar de uma lógica autoritária.
Esse ímpeto autoritário piora as coisas quando aparece em um contexto de judicialização da política, em que se percebe a "desigualdade de armas" patrocinada por agentes públicos que deveriam manter a integridade das instituições, mas acabam defendendo interesses de grupos agarrados às costas do erário público.
A história oferece exemplos suficientes dos perigos desse caminho.
Hannah Arendt também nos ajuda a refletir sobre outra questão: a importância de pensar criticamente sobre nossas próprias ações. Ao desenvolver sua reflexão sobre a chamada banalidade do mal, a partir do julgamento de Adolf Eichmann, a filósofa chamou a atenção para os perigos da ausência de pensamento crítico e da incapacidade de examinar as consequências dos próprios atos.
João, eu não pretendo igualar uma discussão eleitoral ao debate filosófico sobre os acontecimentos históricos estudados por Arendt. Seria uma simplificação inadequada. Mas considero possível aproveitar a reflexão para formular a você uma pergunta sobre o nosso cotidiano: quantas vezes nós dois repetimos uma informação, uma acusação ou uma opinião sem realmente pensar sobre aquilo que estávamos dizendo?
Durante as eleições, vi notícias falsas circularem rapidamente, muitas vezes compartilhadas por pessoas que sequer haviam lido o conteúdo completo. Bastava que uma manchete confirmasse determinada convicção para que fosse reproduzida como verdade. Muitos gritos de palavras chulas, algumas inaudíveis ou de difícil entendimento, construíram um espetáculo parecido com uma turba em um estádio repleto de torcedores xingando regras que mal conheciam.
E seria confortável afirmar que esse comportamento aconteceu apenas entre aqueles de quem discordamos. Mas não seria verdadeiro.
Todos estamos sujeitos ao viés de confirmação. Todos podemos sentir a tentação de acreditar mais facilmente em informações que reforçam nossas opiniões. Reconhecer essa possibilidade é uma das primeiras exigências do pensamento crítico. Talvez por isso eu tenha sentido tanta necessidade de conversar com você, meu amigo.
Queria ouvi-lo sem presumir que já conhecia todas as suas razões. Queria fazer perguntas, compreender suas preocupações e, quem sabe, perceber aspectos dos acontecimentos que haviam escapado à minha própria interpretação.
Também gostaria que você pudesse fazer o mesmo comigo. Ou nos tornamos inimigos recíprocos?
João, nunca esperei que, ao final dessa conversa, algum de nós mudasse de opinião. Na verdade, essa nunca foi minha intenção. O que eu desejo com essa carta é que ambos, a partir desse encontro, tenhamos uma compreensão maior sobre o pensamento do outro e, talvez, sobre nós mesmos. Existe uma diferença importante entre conversar para compreender e conversar para vencer.
Quando entramos em um diálogo determinados a provar que estamos certos, frequentemente deixamos de escutar. Enquanto o outro fala, já estamos organizando mentalmente a próxima resposta. Procuramos contradições, preparamos argumentos e esperamos o momento de demonstrar nossa superioridade.
Mas será que isso ainda pode ser chamado de diálogo?
João, quando jovens, sabíamos que era importante sermos questionados. Lembra disso? Fazia parte do método dialético que tanto defendemos. Isso não significa tratar fatos comprovados como simples opiniões, nem colocar informações verdadeiras e falsas no mesmo nível. Como observador, continuo acreditando que existem compromissos inegociáveis com a verdade factual, os direitos humanos e a dignidade das pessoas. O respeito às diferenças não exige neutralidade diante da mentira ou da violência. João, lembra desse nosso compromisso ético de nossa juventude?
Entretanto, entre defender princípios e tentar impor nossas convicções existe uma distância que precisamos aprender a reconhecer. Quando imagino o futuro da Comunicação, gostaria que nós dois encontrássemos mais profissionais preocupados em construir pontes de compreensão, sem abrir mão da independência crítica. Seria bom se você e eu pudéssemos contar com jornalistas capazes de fazer perguntas difíceis, inclusive àqueles com quem concordam, e de reconhecer a humanidade daqueles cujas ideias precisam contestar.
João, lembre-se: a democracia necessita desse compromisso.
Afinal, depois de uma eleição, os vencedores e os derrotados continuam vivendo no mesmo país. Frequentam os mesmos espaços, trabalham juntos, compartilham problemas e enfrentam desafios que não desaparecem com a divulgação dos resultados. Não podemos transformar cada disputa política em uma ruptura definitiva entre pessoas.
Foi com esse pensamento que decidi procurá-lo, João. Não quero que nossas diferenças se tornem maiores do que a história que construímos juntos. Também não desejo fingir que concordávamos sobre assuntos importantes apenas para evitar uma conversa desconfortável. Quero que possamos discordar com sinceridade e respeito.
Não espero que meu melhor amigo concorde comigo sobre o futuro do Brasil. Tampouco acredito que nossa amizade dependa disso. O que espero é que continuemos capazes de sentar à mesma mesa, olhar um para o outro com respeito e reconhecer que nenhum de nós possui todas as respostas.
Porque, no fim das contas, talvez a maior demonstração de maturidade democrática não esteja em convencer alguém de que estamos certos, mas em reconhecer que podemos pensar diferente e, ainda assim, continuar construindo juntos um mundo em comum.
As urnas encerram uma disputa eleitoral. O diálogo, entretanto, precisa continuar.
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