Outubro Rosa: medo do câncer pode continuar após o tratamento

08 Outubro 2026 - 19:49
Atualizada: 1 Hora Atrás
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Outubro Rosa: medo do câncer pode continuar após o tratamento

O fim do tratamento contra o câncer de mama nem sempre representa o encerramento do sofrimento emocional. Para muitas mulheres, o medo de a doença voltar continua presente mesmo depois da cirurgia, da quimioterapia ou da radioterapia. O tema ganha destaque durante o Outubro Rosa, campanha dedicada à conscientização sobre a prevenção, o diagnóstico e o tratamento do câncer de mama.

Especialistas ouvidos pela Agência Brasil alertam que a fase posterior ao tratamento pode trazer inseguranças, mudanças na autoestima e ansiedade diante dos exames de acompanhamento. Por isso, o cuidado com a paciente precisa ir além dos procedimentos médicos e considerar também sua saúde emocional.

Fim do tratamento pode trazer novas inseguranças

Durante meses, a rotina de muitas pacientes é marcada por consultas, exames, procedimentos e contato frequente com profissionais de saúde. Quando essa etapa termina, o acompanhamento pode se tornar menos intenso, dando lugar a dúvidas sobre o futuro.

A psicóloga clínica Laís Mutuberria Vieira explica que familiares e amigos costumam comemorar o fim do tratamento e esperar que a vida retorne à normalidade. A mulher, porém, pode continuar enfrentando medo, insegurança e dificuldades para se adaptar às mudanças provocadas pela doença.

Segundo a especialista, exames de rotina e alterações físicas, como uma dor ou um desconforto, podem despertar o receio de que o câncer tenha voltado.

A psicóloga destaca que o encerramento da quimioterapia ou da radioterapia não significa que o cuidado emocional deva terminar. O suporte precisa respeitar o ritmo de cada paciente e ajudá-la a recuperar a confiança na própria vida.

Mudanças no corpo podem afetar a autoestima

O câncer de mama e seus tratamentos podem provocar alterações físicas e emocionais que influenciam a forma como a mulher se percebe.

Cicatrizes, retirada de uma mama ou reconstrução mamária, fadiga e efeitos de medicamentos podem afetar a autoestima, a disposição e a intimidade com o parceiro.

Essas transformações também podem repercutir na sexualidade, no desejo, na confiança e na maneira como a mulher se reconhece diante do espelho.

Laís Mutuberria Vieira ressalta que algumas pacientes continuam utilizando medicamentos por anos após o tratamento principal e podem conviver com efeitos que interferem nas atividades cotidianas.

Nesse contexto, o apoio de familiares, amigos e profissionais de saúde pode ajudar a enfrentar as mudanças sem pressionar a mulher a retomar imediatamente a rotina anterior.

Apoio psicológico pode fazer parte do cuidado

A médica mastologista e radiologista Renata Reis Pinto, que atua no Instituto Nacional de Câncer (Inca), afirma que o câncer de mama ainda é cercado por estigmas e frequentemente associado à ideia de uma sentença de morte.

O diagnóstico pode provocar dúvidas e medo sobre a evolução da doença, os procedimentos necessários e as consequências para a vida pessoal e profissional.

Para a médica, oferecer um atendimento multidisciplinar é importante. Além do acompanhamento médico, a paciente pode precisar de apoio psicológico e assistência social para lidar com questões familiares, profissionais e financeiras.

A psico-oncologia, área que integra conhecimentos da psicologia ao cuidado oncológico, pode ajudar a identificar quando o sofrimento emocional está intenso e exige uma abordagem especializada.

A necessidade de acompanhamento varia de pessoa para pessoa. Em alguns casos, o profissional de saúde poderá avaliar a indicação de tratamento específico para sintomas emocionais.

Paciente relata depressão e medo durante os exames

A experiência de Josiane Fernandes, de 48 anos, moradora de Volta Redonda, no sul do Rio de Janeiro, mostra como os efeitos emocionais podem persistir depois do tratamento.

Ela descobriu um nódulo na mama esquerda no início de 2025 e confirmou o diagnóstico de câncer em março daquele ano. O tratamento incluiu cirurgia, quimioterapia e imunoterapia e durou aproximadamente um ano e três meses.

Josiane conta que inicialmente manteve o diagnóstico em segredo, compartilhando a informação com o marido somente após a biópsia. Durante o processo, desenvolveu depressão e precisou de tratamento.

Mesmo depois de concluir a etapa principal, ela continua em acompanhamento médico e relata sentir pânico diante de consultas e exames de rotina, que a fazem recordar o período da doença.

A paciente defende que as pessoas que enfrentam o câncer recebam atenção também no pós-tratamento, para que possam reconstruir a vida e lidar com o medo da recidiva.

Câncer de mama continua sendo o tumor mais incidente entre mulheres

De acordo com a estimativa do Instituto Nacional de Câncer para o triênio de 2026 a 2028, o Brasil deverá registrar 78.610 novos casos de câncer de mama por ano.

O tumor representa aproximadamente 30% dos casos de câncer entre as mulheres, com risco estimado de 71,57 novos casos para cada 100 mil mulheres.

Os números reforçam a importância da conscientização, do diagnóstico oportuno, do acompanhamento médico e do acesso ao tratamento adequado.

Outubro Rosa também é sobre acolhimento

A campanha Outubro Rosa costuma destacar a prevenção, a identificação de sinais suspeitos e a importância de procurar atendimento de saúde. A experiência de pacientes e especialistas também chama atenção para uma etapa que pode receber menos visibilidade: a recuperação emocional após o tratamento.

O fim dos procedimentos não apaga necessariamente o medo, as mudanças físicas ou as lembranças da doença. Por isso, reconhecer as dificuldades e oferecer apoio sem julgamentos pode fazer parte da reconstrução da vida após o câncer.

Mulheres que enfrentam ansiedade intensa, tristeza persistente ou medo que interfere na rotina podem conversar com a equipe de saúde sobre a possibilidade de acompanhamento psicológico. O cuidado integral considera tanto a saúde física quanto o bem-estar emocional durante e depois do tratamento.

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