Gaza: três anos após ataque do Hamas, cessar-fogo não garante paz
Três anos após o ataque do Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023, a Faixa de Gaza continua enfrentando uma grave crise humanitária, com relatos de bombardeios, mortes de civis, insegurança alimentar e dificuldades para iniciar a reconstrução do território. O plano de paz mediado pelos Estados Unidos permanece diante de impasses relacionados à retirada das forças israelenses, ao desarmamento do Hamas e à futura administração palestina.
Segundo relatório do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha), publicado em 5 de outubro de 2026, ataques aéreos israelenses continuam atingindo áreas densamente povoadas. Os dados citados no documento apontam que, entre 23 e 30 de setembro, 29 palestinos morreram e 147 ficaram feridos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza.
O cenário mantém a população palestina sob pressão, mesmo após o anúncio de cessar-fogo em outubro de 2025. Especialistas ouvidos pela Agência Brasil avaliam que a interrupção parcial das hostilidades não se traduziu em segurança duradoura nem em avanços suficientes para a reconstrução.
Crise humanitária continua em Gaza
A situação humanitária permanece crítica para os cerca de 2 milhões de palestinos que vivem na Faixa de Gaza. Segundo o Ocha, a falta de financiamento ameaça reduzir significativamente a distribuição diária de refeições quentes.
O organismo estima que 1,4 milhão de pessoas, o equivalente a aproximadamente 67% da população do território, enfrentariam níveis de insegurança alimentar aguda entre julho e dezembro de 2026. O relatório também aponta limitações na entrada de ajuda humanitária e dificuldades para atender às necessidades básicas.
A reconstrução também não avançou na escala necessária. A destruição de moradias, hospitais, escolas e outras estruturas essenciais mantém grande parte da população deslocada, vivendo em condições precárias.
Desarmamento do Hamas e retirada israelense são impasses
Um dos principais obstáculos à implementação do plano de paz é a divergência sobre a ordem das etapas previstas para encerrar o conflito.
O professor de relações internacionais Bruno Huberman, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), explicou à Agência Brasil que Israel condiciona a retirada de suas forças ao desarmamento do Hamas. O grupo palestino, por sua vez, vincula o desarmamento à saída das tropas israelenses.
O impasse dificulta a transição para uma administração civil e impede que os planos de reconstrução avancem de forma abrangente. Reportagens recentes também apontam que as divergências sobre segurança, retirada militar e governança continuam bloqueando a implementação de etapas centrais do acordo.
O ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Sa'ar, afirmou que a transferência da administração civil para o Comitê Nacional para a Administração de Gaza depende da desmilitarização dos grupos armados palestinos.
Segundo Huberman, Israel também impede o retorno ao território de integrantes do comitê tecnocrático palestino que deveria participar da organização da reconstrução.
Milícias contrárias ao Hamas ampliam a disputa interna
Outro ponto destacado pelos especialistas é a atuação de grupos armados contrários ao Hamas dentro de Gaza.
A professora de relações internacionais Isabela Agostinelli, da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), afirmou à Agência Brasil que milícias apoiadas por Israel disputam espaço e influência com o grupo palestino.
Em 2025, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu reconheceu, segundo o jornal The Times of Israel, que seu governo apoiava grupos armados contrários ao Hamas.
Para os analistas ouvidos pela Agência Brasil, essa dinâmica aumenta a fragmentação política e torna mais complexa a definição de uma autoridade capaz de administrar o território após a guerra.
População palestina enfrenta desesperança
Após três anos de conflito, os impactos vão além das perdas materiais e das mortes. O deslocamento prolongado, a destruição de comunidades e a falta de perspectivas de reconstrução também afetam o estado emocional da população.
Huberman relatou perceber uma desesperança crescente entre palestinos com quem mantém contato, tanto dentro quanto fora do território.
O pesquisador avalia que o ataque de 7 de outubro de 2023, liderado pelo Hamas, teve consequências estratégicas profundas. Na análise dele, a reação militar israelense provocou um custo humano enorme para os palestinos e não produziu, até agora, um caminho claro para a criação de um Estado palestino.
O ataque do Hamas matou cerca de 1.200 pessoas em Israel e levou à captura de 251 reféns, segundo levantamentos publicados sobre o terceiro aniversário do episódio. A ofensiva israelense que se seguiu provocou dezenas de milhares de mortes palestinas e devastação generalizada em Gaza.
Violência e expansão de assentamentos na Cisjordânia
A crise também se estende à Cisjordânia ocupada, onde especialistas apontam o aumento da violência de colonos israelenses, a expansão de assentamentos e o deslocamento de palestinos.
Isabela Agostinelli afirmou que a população palestina enfrenta pressões para deixar suas casas e que a violência de colonos ocorre em um contexto de apoio ou tolerância de setores do Estado israelense.
O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários também tem alertado para a expansão dos assentamentos, as restrições de circulação e o deslocamento de comunidades palestinas na Cisjordânia.
Essas condições dificultam a estabilidade política e aumentam os obstáculos para uma solução negociada que assegure direitos e segurança às populações dos dois territórios.
Eleições palestinas previstas para novembro
A disputa sobre o futuro político palestino também permanece aberta. A Autoridade Palestina, liderada por Mahmoud Abbas, enfrenta questionamentos sobre sua legitimidade e sobre a capacidade de representar a população em meio ao conflito.
A eleição legislativa mencionada no texto de origem estava prevista para 28 de novembro de 2026, quase duas décadas depois da última votação parlamentar. Entretanto, informações recentes indicam que facções palestinas discutem um possível adiamento devido a dificuldades logísticas e divergências políticas.
O futuro da votação pode influenciar a formação de uma administração palestina e as negociações sobre a reconstrução de Gaza.
Reconstrução segue sem perspectiva concreta de avanço
Três anos após o início da guerra, o cessar-fogo interrompeu parte das hostilidades em larga escala, mas não eliminou a violência nem resolveu os principais impasses políticos e militares.
A reconstrução depende de condições de segurança, acesso a materiais, financiamento internacional e definição sobre quem governará Gaza. Enquanto Israel e Hamas mantêm posições divergentes sobre desarmamento e retirada militar, a população continua enfrentando deslocamento, escassez e perdas humanas.
O cenário reforça a distância entre o anúncio de um plano de paz e a construção de condições efetivas para uma paz duradoura, com segurança, recuperação humanitária e perspectiva política para israelenses e palestinos.
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