Eu não sei
A maturidade permite-nos dizer que não sabemos.
Eu não sei
Em alguns momentos do dia, tenho quase que obrigação de dedicar ao menos uma hora para acessar as redes sociais para saber das novidades. Não abandonei meus jornais favoritos, com os quais ainda mantenho assinaturas mensais, agora lidos no formato digital. E, não é superficial dizer que nunca tivemos tanta informação ao alcance das mãos. Em poucos minutos, conseguimos assistir a um vídeo sobre economia, ler um post sobre saúde, acompanhar uma discussão política e encontrar alguém explicando física quântica em menos de um minuto.
Além de informação falsa, há muita coisa séria e que vale a pena meu dispêndio de alguns minutos. Também não posso deixar de falar dos memes e dos vídeos de puro entretenimento. Isso é fascinante, mas também me preocupa. Às vezes, parece que estamos confundindo cada vez mais ter acesso à informação com realmente compreender alguma coisa.
Minha tela do celular está cheia de "especialistas de tudo". De receitas caseiras que curam calvície a estrategistas de poder que "sabem tudo o que não passa nos jornais".
Foi pensando nisso que pesquisei sobre o chamado efeito Dunning-Kruger. O fenômeno ganhou esse nome a partir de um estudo publicado em 1999 pelos psicólogos David Dunning e Justin Kruger, pesquisadores da Universidade Cornell.
Simplificando, pois esse espaço não nos permite um debate tão profundo como o tema merece, esses pesquisadores observaram que pessoas com baixo desempenho em determinadas tarefas também podiam ter dificuldade para reconhecer as próprias limitações.
Vamos lá: para perceber que não sabemos de alguma coisa, muitas vezes precisamos saber o suficiente sobre ela para identificar nossos próprios erros. Meio que dizer que, depois que estudei um pouco sobre fisiologia humana, percebi que não sei muita coisa a respeito. Cruel, né?
A frase que bomba na internet é “quem sabe menos é quem fala com mais certeza”.
Acho essa frase interessante, mas ela também simplifica demais o estudo. O ponto mais importante, para mim, está na chamada metacognição: nossa capacidade de avaliar o próprio conhecimento não é perfeita. Podemos acreditar que entendemos muito mais do que realmente entendemos. E, conforme aprendemos, começamos também a enxergar a complexidade que antes nem sabíamos que existia.
Pergunte a um borracheiro por que determinados tipos de pneus têm que ter determinada calibragem do ar comprimido. Então, meu amigo, verá que você não sabe nada de pneu e de pressão manométrica.
Talvez seja justamente por isso que discutir o viés de Dunning-Kruger tenha ganhado sentido e importância nas redes sociais. O que acontece é que estamos consumindo uma quantidade gigantesca de informações em fragmentos de vídeo de 30 segundos, carrossel, manchetes, cortes de podcast.
Acessamos conteúdos rápidos e conhecemos alguns conceitos e palavras novas, de modo enormemente superficial, o que significa necessariamente que pensamos que dominamos um assunto, mas não "sabemos realmente" muito sobre ele.
Informação não é sinônimo de conhecimento. Conhecimento exige contexto, comparação, estudo, dúvida e, muitas vezes, tempo. Conhecer é questionar antes de tudo.
As próprias redes ajudam a piorar o problema na medida em que os algoritmos das empresas proprietárias das plataformas, em conjunto com nossas escolhas e preferências pessoais, podem fazer com que encontremos repetidamente conteúdos semelhantes às nossas próprias opiniões. É como se falássemos apenas para quem concorda com a gente ou que ouvíssemos sempre opiniões condizentes com as nossas. É um vai-e-vem das mesmas ideias, muitas vezes equivocadas.
Isso, num primeiro momento, nos dá conforto pois acabamos por achar que não estamos sózinhos em nossas opiniões, mas pode gerar o equívoco de imaginarmos que o que pensamos faz parte da maioria da mentalidade social vigente.
Quando quase tudo que aparece na tela confirma aquilo em que já acreditamos, fica mais difícil perceber argumentos contrários e questionar nossas certezas. Alguns pesquisadores estudaram como ambientes informacionais e grupos podem favorecer esse tipo de dinâmica. Outros refletem sobre a existência das chamadas “bolhas de filtros”.
Quando você acessa uma rede social é praticamente certo que os algoritmos o coloquem em um "nicho" ideológico. Pense nisso! Sem querer, você já está rotulado por um "alguém" que você nem conhece.
Outro aspecto é a velocidade com que hoje somos incentivados a aprender tudo. Existem cursos rápidos, resumos, certificações e tutoriais para praticamente qualquer assunto. Essas ferramentas podem ser excelentes portas de entrada para o conhecimento, mas uma introdução não deveria ser confundida com domínio de um tema.
Com a leitura acontece o mesmo. Se você se acostuma apenas a conteúdos curtos, poderá perder espaço para aquela leitura lenta que nos obriga a parar, voltar uma página, discordar e pensar. É quase certo que uma leitura rápida aborte sua iniciativa de reflexão. A pesquisadora Maryanne Wolf, por exemplo, discute justamente os impactos do ambiente digital sobre a leitura profunda.
Estou atualmente desenvolvendo uma habilidade há muito esquecida. Estou voltando a dizer “eu não sei”. Antes de compartilhar uma informação, tenho perguntado a mim mesmo de onde ela veio, quem tem interesse em sua propagação, quais efeitos ela realmente produz…essas coisas!
Adoro falar da minha experiência pessoal. Contudo, tenho consciência de que ela não é suficiente para sustentar conclusões sobre tudo. Tenho opiniões, experiências e estudo, por isso sei que é importante reconhecer que não saber não diminui ninguém.
No fim, quanto mais estudo determinado assunto, mais interessante acho perceber o tamanho daquilo que ainda não conheço.
Não tenho mais vergonha em dizer "Eu não Sei!".
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