‘A IA cria incentivos para a mentira’, alerta neurocientista

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‘A IA cria incentivos para a mentira’, alerta neurocientista

Usar inteligência artificial (IA) para fazer tarefas da escola ou do escritório criou um problema que vai além do aprendizado. Ao entregar um texto ou projeto gerado pela máquina como se fosse próprio, a pessoa obtém uma vantagem rápida e sem esforço. Para o neurocientista Álvaro Machado Dias, essa dinâmica cria incentivos para a mentira.

O impacto, porém, não se limita à questão ética. Em sua coluna no programa Olhar Digital News, o especialista alerta que a facilidade em evitar a fricção mental reduz as barreiras morais dos indivíduos com o tempo. Além disso, a dependência contínua da tecnologia atrofia a capacidade de tomar decisões difíceis e amplia as desigualdades no mercado de trabalho.

Novas fronteiras da IA na mente e na sociedade

Para o neurocientista, a crise provocada pela IA na educação está nos métodos de avaliação baseados em trabalhos feitos fora da sala de aula. Ao permitir que tarefas sejam automatizadas e entregues sem esforço real, a tecnologia premia a trapaça em vez do desenvolvimento do aluno. 

“O problema vai além da economia de esforço. Isso cria incentivos para a mentira. Quando construímos ambientes em que mentir é vantajoso, diminuímos a barreira ética para mentiras futuras. Assim, acabamos formando pessoas menos éticas”, explica o doutor Álvaro Machado Dias, que também é professor na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Esse hábito de transferir o trabalho mental para a máquina, processo conhecido como cognitive offloading, afeta a mente de forma seletiva. As escolhas diárias mais simples continuam preservadas, mas a capacidade de resolver problemas complexos começa a se degradar. 

Ilustração de mãos humanas em volta de cérebro humano ilustrando a ideia e que a inteligência artificial (IA) é a peça que falta no órgão
O hábito de transferir o trabalho mental para a máquina é conhecido como cognitive offloading – Imagem: Jack_the_sparow/Shutterstock

“Decisões rápidas e intuitivas praticamente não são afetadas. O problema está nas decisões difíceis, aquelas que exigem avaliar opções, construir modelos mentais e imaginar possibilidades. É justamente aí que o cognitive offloading reduz a qualidade das nossas decisões”, diz o neurocientista.

A busca por atalhos é uma tendência biológica do cérebro para economizar energia. No entanto, evitar a fricção e o desconforto mental de forma contínua traz um impacto negativo para a saúde intelectual e o bem-estar. 

“Quando você evita o esforço, no curto prazo parece ótimo, porque não sofreu nem se cansou. Mas, no médio prazo, essa perda de potência intelectual é vivida como perda de vitalidade. E a vitalidade está diretamente ligada ao bem-estar”, aponta o professor da Unifesp.

O paradoxo é que aquilo que evita um desconforto momentâneo acaba produzindo uma insatisfação duradoura.

Doutor Álvaro Machado Dias, neurocientista e professor na Unifesp, em entrevista ao Olhar Digital.

Além dos efeitos cognitivos e éticos no indivíduo, a tecnologia altera a dinâmica das profissões. Em tarefas repetitivas e operacionais, como nos call centers, os algoritmos elevam o desempenho dos trabalhadores iniciantes e nivelam as competências por baixo. “Os resultados mostram que a IA eleva bastante o desempenho de quem estava na base, enquanto melhora muito pouco o desempenho dos especialistas. Ou seja, ela nivela as competências”, analisa o neurocientista.

O cenário muda em funções complexas, que exigem gerenciar processos, pessoas e estratégias. Quem já domina essas competências usa a IA como amplificador, abrindo distância em relação aos trabalhadores operacionais. “Nesses casos, a assimetria cresce bastante”, diz o especialista. 

“Quem consegue incorporar a IA ao seu trabalho passa a ter uma produtividade e uma capacidade de transformação da realidade muito superiores às de quem permanece em processos mais operacionais. Por isso, a IA democratiza capacidades, mas também aumenta desigualdades”, conclui o doutor Álvaro Machado Dias.

Confira abaixo a coluna do neurocientista no Olhar Digital News:

Como o cérebro chega a esse estágio

Essa tendência de terceirizar o pensamento é o desdobramento da descarga cognitiva (tradução livre de “cognitive offloading”). Ferramentas tradicionais, como cadernos e calculadoras, apenas guardavam dados de forma estática. Já a IA generativa interpreta, gera e estrutura o conteúdo em tempo real. Isso intensifica o “Efeito Google“, fenômeno no qual o cérebro deixa de armazenar informações por saber que elas estão a um clique de distância.

A transição do armazenamento passivo para a delegação do próprio raciocínio traz riscos à autonomia intelectual. Ao evitar o trabalho mental necessário para aprender de fato, o indivíduo passa a atuar como mero curador de resultados prontos, o que atrofia capacidades de síntese e resolução de problemas. 

“Quando a IA passa a funcionar como uma ‘bengala’ permanente do pensamento, existe o risco de enfraquecermos nossa capacidade de refletir, elaborar e criar”, alerta a psicóloga e psicanalista Beatriz Breves, em entrevista ao Olhar Digital.

Ilustração de cérebro humano com coisas em volta que remetem a tecnologia, inteligência artificial (IA) e ideias
Ferramentas de IA oferecem atalhos quase irresistíveis para o pensamento – e isso é perigoso – Imagem: SvetaZi/Shutterstock

Esse comportamento é alimentado pelo circuito de recompensa imediata das plataformas de IA. Ao contrário da rolagem de redes sociais, que usa recompensas aleatórias, os chatbots entregam uma resposta precisa e rápida a cada comando. 

Essa satisfação sem a contrapartida do esforço vicia o cérebro na ausência de fricção mental. Com o tempo, essa busca por respostas instantâneas consolida o terreno para as perdas de vitalidade e o uso de atalhos em tarefas complexas.

O resultado desse processo é a chamada “algoritmização do pensamento”, na qual a mente passa a raciocinar na mesma estrutura engessada da máquina. “Uma coisa que acontece com muito uso de algoritmo para ajudar a pensar: a pessoa começa a transformar as coisas em itens. Ela vira a pessoa dos bullet points“, observa o doutor Álvaro Machado Dias, em entrevista ao Olhar Digital

Como o conteúdo gerado por IA se baseia na média estatística, a dependência excessiva dessa tecnologia limita a criação original e impede a consolidação do senso crítico. Então, o maior desafio diante da IA generativa é comportamental: manter a fricção mental para evitar que a busca por eficiência atrofie sua potência intelectual e afrouxe seus limites morais.

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