Médicos divergem sobre uso de canetas paraguaias
Médicos adotam posições diferentes
O uso de medicamentos para emagrecimento adquiridos no Paraguai tem provocado divergências entre médicos brasileiros sobre uma questão que chegou aos consultórios: o profissional deve acompanhar um paciente que já utiliza um produto sem registro sanitário no Brasil?
O tema ganhou repercussão diante do aumento da procura por versões paraguaias de medicamentos à base de tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro.
Em reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, médicos relataram posições diferentes. Alguns afirmam que não se sentem seguros para acompanhar pacientes que utilizam produtos sem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Outros defendem que o acompanhamento médico pode reduzir riscos, mesmo quando o paciente decide manter o uso do produto. Folha de S.Paulo
Paciente relata dificuldade para encontrar médico
A advogada Andreza Botan, de 47 anos, contou à Folha que decidiu trocar o Mounjaro por uma versão paraguaia de tirzepatida e encontrou resistência ao procurar acompanhamento médico.
Segundo seu relato, um endocrinologista chegou a questioná-la sobre o uso do produto e afirmou que poderia chamar a polícia. O médico, de acordo com Andreza, não aceitou acompanhar o tratamento com o medicamento adquirido no Paraguai. Folha de S.Paulo
O episódio ilustra o dilema enfrentado por profissionais diante de pacientes que chegam ao consultório já utilizando medicamentos que não possuem registro sanitário no Brasil.
Produtos têm tirzepatida, mas não possuem registro no Brasil
Uma análise independente realizada por pesquisadores da Unicamp, a pedido da Folha, identificou a presença de tirzepatida em cinco produtos fabricados no Paraguai: Tirzedral, TG, Lipoless, Tirzec e Gluconex.
Os pesquisadores analisaram a presença, a concentração e a estrutura molecular do princípio ativo. O estudo, porém, não avaliou pureza, eficácia ou segurança dos medicamentos. Folha de S.Paulo
Os produtos analisados possuem registros no Paraguai, mas não têm registro sanitário na Anvisa e, portanto, não podem ser comercializados regularmente no Brasil.
A Anvisa ressalta que uma análise laboratorial pontual não substitui o processo regulatório necessário para comprovar qualidade, segurança e eficácia de um medicamento. Folha de S.Paulo
Diferenças na concentração chamaram atenção
A análise da Unicamp encontrou diferenças entre as concentrações declaradas e as identificadas nas amostras.
O caso considerado mais preocupante pelos pesquisadores foi o do Gluconex, que apresentou concentração de tirzepatida cerca de 60% superior à encontrada na amostra de Mounjaro utilizada como referência no estudo.
Segundo os pesquisadores, uma diferença desse tipo pode aumentar o risco de efeitos adversos caso o paciente utilize a dose indicada acreditando que a concentração corresponde à informada pelo fabricante. Folha de S.Paulo
Parte dos médicos prefere não acompanhar
O presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Neuton Dornelas, afirmou à Folha que não acompanha pacientes que utilizam medicamentos sem registro na Anvisa.
Entre as preocupações citadas estão a impossibilidade de garantir a procedência do produto, sua composição, pureza, estabilidade e condições de transporte e armazenamento.
Outro endocrinologista ouvido pela reportagem, Clayton Macedo, afirmou que procuraria alternativas com registro no Brasil para pacientes que não conseguem arcar com o preço do Mounjaro. Folha de S.Paulo
Outros especialistas defendem o acompanhamento
Há, entretanto, médicos que entendem que abandonar o paciente pode aumentar os riscos.
O endocrinologista Júlio Américo Batatinha defende que o profissional continue acompanhando o paciente, mesmo sem prescrever o produto irregular, para orientar sobre os riscos e tentar conduzi-lo para uma alternativa aprovada.
Segundo ele, alguns pacientes aceitam substituir o medicamento por opções regularizadas, enquanto outros permanecem utilizando o produto adquirido no Paraguai.
Nessas situações, o médico afirma que pode continuar acompanhando o paciente, sem prescrever a caneta paraguaia, e monitorar possíveis complicações. Folha de S.Paulo
Anvisa tem proibido produtos sem registro
A Anvisa vem adotando medidas contra a importação, comercialização e uso de diferentes canetas de GLP-1 sem registro sanitário no país.
Em setembro, por exemplo, a agência proibiu a T36, que contém tirzepatida e não possui registro sanitário no Brasil. A decisão proibiu importação, armazenamento, distribuição, comercialização, propaganda e uso do produto. Governo Federal
Em abril, a Anvisa também havia determinado a apreensão de produtos como Gluconex e Tirzedral, proibindo comercialização, distribuição, importação e uso por não possuírem registro, notificação ou cadastro na agência. Governo Federal
Conselho médico alerta para riscos
O Conselho Federal de Medicina (CFM) também alertou médicos sobre a prescrição de tirzepatida sem registro na Anvisa.
Segundo o conselho, produtos sem comprovação de qualidade, autenticidade e condições adequadas de armazenamento podem representar riscos ao paciente. A entidade também afirmou que médicos que prescreverem, indicarem, aplicarem ou facilitarem o acesso a medicamentos em desacordo com as normas sanitárias podem ser submetidos a apuração ético-profissional. Folha de S.Paulo
Debate envolve segurança do paciente
A divergência entre os médicos não significa que os profissionais estejam defendendo a prescrição de medicamentos sem registro. O ponto central é como agir quando o paciente já tomou a decisão de utilizar o produto.
De um lado, há profissionais que consideram que acompanhar esse tratamento poderia transmitir a impressão de que o produto é seguro ou aprovado pelas autoridades brasileiras.
De outro, especialistas defendem que manter o vínculo médico permite identificar efeitos adversos, orientar o paciente e tentar substituí-lo por uma opção regularizada.
Enquanto o debate continua, a Anvisa mantém a orientação de que medicamentos utilizados no Brasil devem atender às exigências sanitárias nacionais, e produtos sem registro não têm a mesma avaliação regulatória de segurança e eficácia exigida para os medicamentos autorizados no país. Governo Federal
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