El Niño já influencia o Brasil, mas não explica sozinho as ventanias em SP e no RJ
Depois da sequência de temporais, ventanias e outros eventos meteorológicos severos registrados em diferentes regiões do Brasil nos últimos dias, uma dúvida ganhou força: o El Niño já está por trás dessas ocorrências?
Especialistas ouvidos pelo Olhar Digital afirmam que o fenômeno climático já começou a influenciar o país, mas alertam que a resposta não é tão simples. Embora seus efeitos já sejam perceptíveis em algumas regiões, nem todos os eventos recentes podem ser atribuídos diretamente ao aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico.
Segundo os especialistas, as ventanias que atingiram São Paulo e o Rio de Janeiro tiveram uma origem diferente, enquanto os primeiros efeitos do El Niño já começam a ser observados principalmente na Região Sul.
A distinção é importante porque ajuda a entender quais fenômenos já podem ser associados ao El Niño, quais dependem de outras condições atmosféricas e o que pode ser esperado para o clima brasileiro nos próximos meses.

O que o El Niño já está provocando no Brasil?
Mesmo antes do período em que seus impactos costumam ser mais intensos, o El Niño já influencia as condições meteorológicas em partes do Brasil.
Segundo a meteorologista Mariana Pallotta, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o órgão já considera que o país está sob influência do El Niño. De acordo com ela, o fenômeno está ativo desde junho e seus efeitos já começaram a ser percebidos na atmosfera, especialmente na Região Sul.
A gente já considera que o país está sob influência do El Niño. Essas últimas chuvas que aconteceram, inclusive no Rio Grande do Sul, a gente já consegue relacionar com o El Niño. Ele já está ativo desde junho e a gente já conseguiu sentir os efeitos dele na atmosfera.
Mariana Pallotta, meteorologista Cemaden
Os impactos mais perceptíveis até agora ocorrem na Região Sul. Mariana explica que a previsão é de chuvas acima da média, mais persistentes e com maior potencial para eventos severos, como tempestades com raios, rajadas de vento e granizo. Além do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná também podem ser afetados nos próximos meses.
A avaliação é semelhante à do meteorologista Gustavo Verardo, da Climatempo. Segundo ele, as chuvas registradas no Sul já têm relação com o El Niño e a tendência é que o fenômeno aumente a frequência de granizo e de outros eventos meteorológicos severos na região.
Quando a gente tem o fenômeno El Niño atuando, há uma maior frequência de ocorrência de granizo e de eventos severos. Infelizmente, isso vai se tornar mais comum, principalmente no Sul.
Gustavo Verardo, meteorologista da Climatempo
Os impactos, porém, não devem se limitar à Região Sul. Mariana Pallotta afirma que o Norte tende a enfrentar redução das chuvas e atraso no início da estação chuvosa. Já no Centro-Oeste e em parte do Sudeste, a expectativa é de ondas de calor mais intensas, favorecidas pela permanência das frentes frias sobre o Sul, o que dificulta seu avanço para outras regiões do país.
Por que as ventanias em São Paulo e Rio não foram causadas pelo El Niño?
Apesar de o El Niño já influenciar o clima brasileiro, os especialistas ouvidos pelo Olhar Digital afirmam que ele não explica as ventanias que atingiram São Paulo e o Rio de Janeiro nos últimos dias.
Segundo Mariana Pallotta, do Cemaden, o fenômeno foi consequência do deslocamento de uma frente fria que permaneceu estacionada sobre a Região Sul antes de avançar em direção ao Sudeste. Ela explica que as rajadas de vento foram provocadas pela passagem dessa frente fria e, por isso, não podem ser associadas diretamente ao El Niño.
“A gente não pode ligar diretamente a ventania ao El Niño, porque ela foi fruto do deslocamento da frente fria. Mas a frente fria ficou estacionada no Rio Grande do Sul e causou toda aquela chuvarada”, afirma.
O meteorologista Gustavo Verardo, da Climatempo, faz a mesma avaliação. Segundo ele, as rajadas registradas no Sudeste foram resultado do forte contraste térmico entre a massa de ar frio associada à frente fria e o ar quente que predominava na região. Esse choque aumentou o gradiente de temperatura e acelerou a intensidade dos ventos.
“Os ventos mais intensos foram causados pelo que a gente chama de contraste térmico. À medida que a frente fria avançava sobre uma superfície mais quente, houve esse contraste térmico e uma maior aceleração do vento”, explica.
Paulo Artaxo, coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável e professor de Física Atmosférica da Universidade de São Paulo (USP), também afirma que não é possível atribuir esses episódios ao El Niño. Segundo ele, o fenômeno ainda está em formação e pode não ter tido participação nas ventanias observadas na semana passada em São Paulo e no Rio de Janeiro.
O El Niño ainda está se formando, então pode não ter nenhuma responsabilidade nesses eventos da semana passada, particularmente em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Paulo Artaxo, professor de Física Atmosférica da USP
O que esperar dos próximos meses?
Os especialistas ouvidos pelo Olhar Digital concordam que os efeitos do El Niño devem se tornar mais evidentes nos próximos meses, embora ressaltem que sua intensidade e seus impactos dependem da interação com outros fatores atmosféricos.
Segundo Mariana Pallotta, do Cemaden, o cenário exige atenção principalmente para a Região Sul, onde há expectativa de chuvas mais persistentes e de maior intensidade. Isso aumenta o potencial para desastres hidrológicos, como cheias, e para movimentos de massa, como deslizamentos de terra, especialmente em áreas que acumularem grandes volumes de chuva ao longo de vários dias.
A meteorologista afirma que o Cemaden já intensificou o monitoramento e tem trabalhado em conjunto com outros órgãos federais para avaliar os impactos do El Niño e orientar as Defesas Civis. Segundo ela, as previsões meteorológicas são acompanhadas continuamente para identificar situações que exijam reforço nos alertas.

Gustavo Verardo, da Climatempo, também avalia que os próximos meses devem ser mais desafiadores para a Região Sul. Para ele, a população deve acompanhar os avisos emitidos pelos órgãos oficiais e adotar as orientações das autoridades sempre que houver previsão de temporais. “Principalmente no Sul, os próximos meses vão ser complicados em relação à chuva e aos temporais”, afirma.
Paulo Artaxo lembra que o padrão climático normalmente associado ao El Niño inclui chuvas mais intensas no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, seca no Brasil Central, no Nordeste e na Amazônia e ondas de calor mais intensas no Sudeste. No entanto, ele ressalta que esse comportamento pode sofrer alterações em razão das mudanças climáticas.
“Como estamos em um clima em forte mudança, temos que tomar muito cuidado com previsões que podem ser diferentes devido à variabilidade climática, que está sendo alterada pelas mudanças climáticas globais”, diz.
Como as mudanças climáticas afetam o El Niño?
Embora o El Niño seja um fenômeno natural e periódico, seus efeitos tendem a ser potencializados pelo aquecimento global. Segundo Paulo Artaxo, o aumento da temperatura dos oceanos faz com que o sistema climático tenha mais energia disponível, o que intensifica os fenômenos meteorológicos associados ao El Niño.
“O El Niño já se inicia com o oceano cerca de um grau mais quente do que algumas décadas atrás. O oceano mais quente fornece mais energia para o sistema climático e para os fenômenos meteorológicos associados ao El Niño”, afirma.
De acordo com o pesquisador, as mudanças climáticas podem favorecer episódios de El Niño mais intensos e, possivelmente, mais frequentes. Ele ressalta, porém, que é preciso distinguir a variabilidade natural do clima dos efeitos provocados pelo aquecimento global.
O clima tem uma variabilidade natural muito grande. Mas o que estamos observando é um aumento da frequência e da intensidade desses fenômenos climáticos extremos. A ciência da atribuição climática atribui esse aumento ao aquecimento global como um todo.
Paulo Artaxo, professor da USP
Para Artaxo, esse cenário reforça a necessidade de ampliar as medidas de adaptação no país. Segundo ele, o Brasil ainda não está preparado para lidar com um clima marcado por eventos extremos mais frequentes e intensos, e a resposta precisa envolver municípios, estados, governo federal e setor privado.
“Não há a menor dúvida que o Brasil não está preparado e adaptado ao novo clima, e isto é uma tarefa urgente em todos os níveis da sociedade brasileira”, afirma.
Artaxo cita iniciativas como o Adapta Brasil, criado para orientar estratégias de adaptação nos municípios brasileiros, mas afirma que essas medidas ainda precisam ser implementadas. Para ele, preparar cidades e estados para um cenário de eventos extremos mais frequentes será fundamental para reduzir prejuízos econômicos e proteger a população mais vulnerável.
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