SpaceX amplia domínio espacial com contratos bilionários do governo Trump
A SpaceX vem ampliando sua presença em Washington, apesar de enfrentar trajetória mais turbulenta em Wall Street. A empresa de foguetes e inteligência artificial (IA) comandada por Elon Musk conquistou, ao longo deste ano, bilhões de dólares em contratos do governo dos Estados Unidos para construir e lançar satélites militares, enquanto o governo do presidente Donald Trump avança com medidas que reduzem exigências regulatórias para o setor espacial.
A companhia também recebeu autorização para contornar determinadas exigências relacionadas a redes sem fio, enquanto o governo trabalha para reduzir avaliações ambientais vinculadas a lançamentos de foguetes.
“Tem havido muita atenção aos ganhos de contratos”, afirmou Todd Harrison, analista de defesa do American Enterprise Institute, ao The Wall Street Journal. “No quadro geral, os ganhos regulatórios têm implicações sistêmicas e de longo prazo maiores para o modelo de negócios da empresa.”
A capacidade da SpaceX de construir e colocar cargas em órbita transformou a companhia em uma das principais parceiras de órgãos militares e de inteligência dos Estados Unidos.
Durante uma teleconferência com investidores em agosto, a presidente da SpaceX, Gwynne Shotwell, destacou as recentes conquistas da empresa no segmento de satélites de segurança nacional e disse estar “muito otimista em relação aos negócios com o governo”.
Bilhões para o Golden Dome
Pouco mais de um ano atrás, segundo pessoas próximas às discussões, líderes do Pentágono planejavam contratar a SpaceX para participar de uma parte importante do projeto Domo de Ouro, planejado por Trump.
O programa foi concebido para utilizar satélites capazes de rastrear mísseis e aeronaves inimigas e poderia movimentar bilhões de dólares.
A possibilidade de uma única empresa assumir uma parcela tão importante de um programa de segurança nacional por vários anos, porém, causou preocupação entre alguns parlamentares. Eles pressionaram pela participação de outros fornecedores.
A Força Espacial dos EUA abriu uma janela para que mais empresas apresentassem propostas. Ainda assim, os critérios extremamente específicos e o cronograma considerado difícil acabaram afastando potenciais concorrentes. Algumas companhias chegaram a desistir de apresentar propostas.
No início deste ano, a SpaceX recebeu um contrato de aproximadamente US$ 4,2 bilhões (cerca de R$ 22,8 bilhões) para desenvolver centenas de satélites destinados ao rastreamento de ameaças aéreas.
Posteriormente, a Força Espacial contratou outras três empresas para participar do programa, oferecendo até US$ 615 milhões (cerca de R$ 3,3 bilhões) em contratos.
Uma porta-voz da Força Espacial afirmou que as exigências do programa não foram elaboradas para favorecer nenhum fornecedor específico e que a estratégia de aquisição buscava estimular a concorrência e atender às necessidades militares.
“Como ocorre com qualquer contrato concedido à indústria, nenhum recurso foi destinado a qualquer empresa até que as competições completas e abertas fossem concluídas”, afirmou a Força Espacial.
A SpaceX não respondeu aos pedidos de comentário do Journal.
Mais de R$ 43,4 bilhões
- Além do contrato para rastrear mísseis, a SpaceX também foi escolhida para fornecer satélites militares de dados e realizar lançamentos para o Domo de Ouro;
- Até agora, a empresa está na linha de frente de contratos relacionados ao programa que somam mais de US$ 8 bilhões (cerca de R$ 43,4 bilhões) — pelo menos um terço de todo o orçamento destinado ao projeto até o momento;
- A posição da SpaceX nesse mercado é reforçada por sua frequência de lançamentos. A empresa é atualmente a operadora de foguetes mais ativa do mundo, colocando regularmente satélites e outras cargas em órbita a partir de diferentes bases de lançamento;
- A companhia também possui um histórico consolidado em projetos governamentais de grande relevância.
Relação próxima com Trump
A expansão dos negócios da SpaceX em Washington ocorre em paralelo à proximidade entre Musk e Trump.
O empresário fez campanha ao lado do presidente na última eleição, ocupou uma função de assessor na Casa Branca e pretende gastar pelo menos US$ 100 milhões (cerca de R$ 542 milhões) para apoiar candidatos republicanos nas próximas eleições de meio de mandato.
A SpaceX, porém, também mantém relações com parlamentares dos dois principais partidos dos Estados Unidos. A empresa contribui para campanhas políticas e gera milhares de empregos em diferentes partes do país.
Em um documento apresentado antes de sua oferta pública inicial de ações, a companhia afirmou que seus negócios poderiam ser prejudicados por mudanças no Congresso ou na Presidência. Ao mesmo tempo, a antiga pressão da SpaceX por regras menos rígidas passou a coincidir com os esforços de desregulamentação da administração Trump.

Musk já havia demonstrado insatisfação com avaliações ambientais exigidas pelo governo federal para projetos relacionados aos foguetes Starship.
Em julho, autoridades federais de transporte propuseram reduzir a supervisão ambiental sobre atividades relacionadas ao setor espacial. A proposta prevê isentar lançamentos e o desenvolvimento de espaçoportos de leis que exigem que órgãos federais avaliem impactos ambientais e alternativas aos projetos.
Um porta-voz do Departamento de Transportes afirmou que a iniciativa ajudaria todos os inovadores do setor espacial dos Estados Unidos na disputa do país com a China pela liderança em órbita.
Vantagens também na área de telecomunicações
A SpaceX também conseguiu avanços na Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC, na sigla em inglês).
Em maio, a agência aprovou o plano da empresa para adquirir direitos de uso de espectro de radiofrequência em uma operação de US$ 17 bilhões (cerca de R$ 92,1 bilhões) destinada a conectar celulares diretamente a satélites.
Ao aprovar o negócio, a FCC dispensou uma exigência segundo a qual o proprietário dos recursos de espectro deveria manter infraestrutura terrestre para assegurar determinados níveis de serviço celular em todo o país.
Em uma decisão, a agência afirmou que manter a exigência representaria um obstáculo para a SpaceX e que a rede da companhia ajudaria a promover a liderança dos Estados Unidos em conectividade.
Em janeiro, a SpaceX havia conseguido uma outra dispensa regulatória da FCC. A medida buscava garantir que satélites posicionados em órbitas mais próximas da Terra não interferissem em equipamentos que operam a distâncias maiores.
A autorização foi concedida enquanto a agência realizava uma revisão mais ampla das regras relacionadas ao tema.
Até um milhão de satélites de IA
A FCC também analisa uma proposta da SpaceX para colocar em órbita até um milhão de satélites de inteligência artificial. A iniciativa é considerada central para a ambição da companhia de expandir suas operações de IA.
A agência ainda não se pronunciou sobre a proposta da frota de satélites de IA. O presidente da FCC, Brendan Carr, entretanto, criticou uma das concorrentes da SpaceX por pedir que a proposta fosse rejeitada.
A Amazon, que desenvolve sua própria rede de satélites, havia solicitado que a FCC rejeitasse o projeto da SpaceX, classificando a proposta como vaga e especulativa.
Carr respondeu no X que a Amazon deveria se concentrar em suas próprias metas para satélites estabelecidas pela FCC, “em vez de gastar tempo e recursos apresentando petições contra empresas que estão colocando milhares de satélites em órbita”.
Um porta-voz da Amazon se recusou a comentar. Já um representante da FCC afirmou que a indústria espacial está passando por um período de expansão que deverá beneficiar os consumidores.
Dependência preocupa parlamentares
O desempenho da SpaceX em Washington também começa a gerar preocupações entre parlamentares sobre a crescente dependência do governo em relação a uma única empresa para projetos sensíveis.
O senador Jack Reed, democrata de Rhode Island e principal membro da minoria no Comitê de Serviços Armados do Senado, mencionou durante uma audiência a “preocupação de longa data com a posição de quase monopólio da SpaceX nos lançamentos e nas constelações de satélites distribuídos”.
Em agosto, a Força Espacial anunciou que incorporaria outras cinco empresas a um programa de satélites criado para transmitir dados militares. As cinco companhias dividirão US$ 60 milhões (cerca de R$ 325 milhões) para demonstrar suas tecnologias.
Meses antes, porém, a SpaceX havia conquistado um contrato para fornecer o que autoridades classificaram como a “espinha dorsal” dessa rede. O acordo foi avaliado em quase US$ 2,3 bilhões (cerca de R$ 12,5 bilhões).
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